A história de Merdina


Indonésia, 26/12/2004. O mundo não foi mais o mesmo depois daquele trágico tsunami que dizimou o país. Mas mesmo em meio ao mais sombrio cenário é possível surgirem histórias que são verdadeiras lições de vida. 24 horas após o fato, as equipes de socorro buscavam sobreviventes e corpos que não tiveram a mesma sorte. Foram dias de muito sofrimento e comoção mundial até que a rotina fosse retomada, dentro do possível.
Passados exatos 30 dias, um casal de moradores das palafitas de Aceh passava pelo que sobrou do depósito de pescado recolhendo entulho, quando sentiram um forte cheiro vindo dos arredores do local. Quando se aproximaram poucos metros mais, um fortíssimo odor de fezes misturado com esgoto e corpos em estado de putrefação. E para surpresa dos 2, um choro ensurdecedor e desesperado. Era uma criança com pouco mais de 1 ano de idade. Abdel e Hassim não tiveram dúvidas e resgataram o menino e o levaram imediatamente ao hospital. Foram 2 meses na UTI, muitas orações e, enfim, ele estava salvo para alegria do casal, que prontamente o adotou.
Por ter sido achado entre as fezes, o moleque foi registrado como Merdina. Merdina foi criado com um amor descomunal, mas como a fofoca é tão devastadora como o tsunami, ele sofreu com o preconceito. Não bastava ser pobre, as pessoas o associavam com o mau cheiro. Merdina, assim, cresceu sem amigos, triste e isolado.
Os anos foram se passando e o casal, já velhinho, pediu para que Merdina os ajudasse a recolher entulho para reciclagem. E parecia que assim seria o resto da vida de Merdina. Sem perspectiva, sem glamour, xingado e hostilizado por onde passava. Mas nada pode ser ruim que não possa piorar. Hassim, a mãe adotiva, começou a sofrer fortes dores de cabeça e não demorou muito que ela falecesse, vítima de um AVC. Merdina chorava copiosamente ao lado do caixão em um velório vazio, sem amigos, sem parentes. Antes que o caixão fosse lacrado, Merdina sussurrou no ouvido dela: "Mãe, nunca tive a chance de agradecer que salvou minha vida, mas eu te prometo que aquele tsunami vai fazer sentido e eu te darei muito orgulho". As lágrimas que Merdina enxugou logo após era uma mistura de raiva, dor e muita, mas muita impulsão para uma reviravolta na vida.
Passado o luto, Merdina acordou cedo para continuar a recolher entulho. E como em um sinal divino, Merdina encontrou uma prancha de surfe feita de madeira surrada. imediatamente ele sorriu, como se entendesse a missão. "Captei sua mensagem, doce mãe. A partir de agora, o tsunami fez nascer o rei das ondas".
E assim Merdina começou a se dedicar ao surfe. Acordava de madrugada, pegava sua prancha e sentava na areia, observando o movimento dos surfistas da área. Com o tempo, foi pegando confiança e se arriscou no mar, mas durou poucos segundos, quando tomou um caldo que o fez enfolir 1 kg de areia. Tentou pedir ajuda, mas ninguém lhe dava bola. "Vai surfar na bosta", dizia um deles, arrancando risada geral.
Isso fez crescer ainda mais o ódio, mas também sua determinação. Mas aparentemente Merdina não conseguia fazer despertar seu talento. Cada entrada no mar era um caldo e um afogamento momentâneo. E como um tsunami de emoções, Merdina cravou a prancha na água e gritou aos céus: "Mãããeeeeeee, porque eu não consigo, por queeeee? Me desculpe, mãe, não sou digno de seu amor", e desmaiou em seguida.
Sob um sol forte, Merdina acordou no dia seguinte na areia e voltou para a cidade com a prancha embaixo do braço, totalmente entregue ao que a vida aparentemente tinha lhe reservado. Mas aquele não seria um dia comum. O dia lindo era o silêncio que precedia o esporro.
Os pássaros voavam alucinadamente no sentido contrário do mar e não demorou muito para um estrondo anunciar mais um tsunami. As sirenes logo tocaram e o pânico se instalou no local. Merdina correu como um louco, tentando avistar um local alto e logo encontrou. As ondas mais uma vez foram levando tudo até que pessoas gritavam: ali, ali. Era o velho Abdel, pai de Merdina, sendo arrastado pela fúria das águas.
Merdina olhou para a prancha de surfe, olhou para o céu como se conversasse com a saudosa mãe e logo após fixou seu olhar na onda negra que arrastava o que tinha pela frente. Não teve dúvidas e pulou. Mas errou o cálculo, bateu a cabeça numa pedra e morreu.
É, Merdina era um merda mesmo.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O negão da piroca

Pombinha Manca

Pergunta indiscreta