Autobullying


Todo mundo tem fatos do passado que são motivos de vergonha e que o melhor lugar é deixar em quarentena eterna, se é que isso é possível, em algum lugar remoto da longínqua região do esquecimento. Mas como este que vos escreve é desprovido de pudor, vou citar apenas 5 informações a meu respeito que fará você repensar a continuidade da leitura deste humilde blog.

1 - A vida tem dessas coisas. Este era o hit do Ritchie em meados de 1983. E essa canção era capaz de arrancar lágrimas de meus olhos no auge de meus 11 aninhos. Eu ficava todo santo dia em frente ao radinho de pilha, sintonizado na AM, no programa de algum locutor mela cueca da época, esperando as 10 mais do dia. E quando os acordes tristes do órgão (teclado…teclado!!) de Ritchie entravam na frequência do meu coração, eu cantava junto com ele em uníssono para o mundo inteiro ouvir. Sensibilizada com isso, minha mãe me aprontou uma surpresa e colocou o LP do astro embaixo de meu travesseiro, fomentando o potencial homosexual que havia dentro de mim e que por um triz não me dominou.

2 - De 4 na 4 por 4. Eu era um ávido consumidor de novelas, mas a trama de 4 por 4, que todos se lembrarão pelo casal Rai e Babalu, me fazia entrar em uma concentração digna de atletas de alta performance. Nada seria capaz de desviar minha atenção durante o capítulo. Não atendia amigos, não tinha pausa para o banheiro, não tinha programa, não havia emergência que me desfocasse. E, no final, consegui um aproveitamento de 100%. Sim, assisti a absolutamente todos os capítulos.

3 - Naninha. Este é um assunto muito, mas muito delicado e, ao final, explicarei o porquê. Na minha infância eu tinha um companheiro que não tinha nome, mas me confortava muito. Era um ursinho de pelúcia. Foram cerca de 7 anos com ele e antes da traumática separação ele já estava bem surrado e pronto para partir dessa para melhor. Vendo que estava difícil superar o luto, procurei um substituto para my little bear, e comecei a dormir com uma "naninha". Era um pedaço de pano ou o lençol dobrado que eu colocava na orelha antes de cair no sono. Foi uma estranha solução, porém muito eficiente….e que eu faço até os dias de hoje. Pronto, falei.

4 - Se você está prestes a ter a certeza que o armário é meu habitat natural e que esta crônica é a chave da liberdade, agora vai surtar. Quando tinha meus 13 aninhos fomos eu e minha família para o litoral de SP, em uma colônia de férias. Muitas atividades, diversão a valer, crianças levadas da breca, capetas em forma de guris e uma menina que foi meu tormento. Ela encasquetou que estava apaixonada por mim e nada conseguia tirar isso da cabeça dela. Aí você pensa:"Aê, Maurão garanhão, o terror do litoral, pega um, pega geral". SQN. Minha reação foi a mesma de uma libélula desvairada. Corria como diabo foge da cruz. Até que ela foi até o chalé onde eu estava e eu, trêmulo como vara verde, chorava copiosamente no colinho da mamãe pedindo que ela fosse embora. E a menina viu tudo. Suficiente para  desmistificar o princípe macho alfa que ela insistia enxergar em mim.

5 - Vivi uma parte da infância em que expor as nádegas em público tinha um certo glamour. E como meu perfil é de vanguarda, tratei de difundir este ato em minha cidade. No começo foi tímido, sem revelar minha identidade, só estampando as bochechas traseiras nos vidros dos carros. Mas movido a desafios como sou, planejei um desfile nada mais, nada menos que na rua em frente a minha casa, em um horário de pico, onde crianças jogavam futebol. E como se não bastasse passar com as nádegas de fora, gritei com todas as minhas forças, como em um ritual indígena de espanto aos maus espíritos. Mas, justamente neste momento, meu pai viu a cena dantesca e gritou ainda mais alto, como o urro do leão-rei prestes a abater sua cria com uma voracidade espartana: "Mauro, sobe já aqui". Subi, ele pediu explicações, eu disse que nada do que fiz era novidade para ele, já que meu pai também era adepto do Bundismo-Lelê. Rimos muito. E apanhei em seguida.

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