Between Good and Mauro (crônica retrô)


Essa aconteceu comigo há mais de 4 anos, quando trabalhava em uma agência que já não existe, cujo dono, hoje já falecido, era uma espécie de "paizão" para mim. Era um dia em que estava de TPM, tudo me estressava e o mundo conspirava contra o meu estado "zen". Na parte da manhã já peguei um trânsito caótico, o calor era de assar, não havia vaga para estacionar e ainda por cima cheguei atrasado com direito a uma bronquinha básica.

Com vapor de irritação saindo de minha cabeça, comecei a trabalhar com aquela típica cara de poucos amigos e nenhuma palavra. Como nada é tão ruim que não possa piorar, meus trabalhos não estavam sendo aprovados, minha mente criativa sofreu um apagão e o computador colaborou travando sem que eu me lembrasse que deveria salvar tudo o que digitei até aquele momento. As bruxas estavam definitivamente à solta. Como minha pança é vasta, resolvi empurrar o período matutino com a barriga.

Enfim, o relógio acusava meio-dia. Quem sabe após o almoço as energias positivas trilhassem o caminho de volta para o meu "eu". Meia hora de caminhada até o lugar onde estacionei o carro e, para minha surpresa, uma multa fazia amor com o pára-brisa do veículo. Juro, aquela placa de proibido estacionar não se encontrava naquele lugar quando peguei aquela vaga. A tarde prometia fortes emoções.

Fui almoçar no primeiro restaurante que encontrei (lógico que a comida estava fria e com gosto de buchada de fígado de ornitorrinco light) e resolvi refletir sobre a onda de nhacas que trucidava meu cotidiano naquele dia. Pedi uma coca-cola (quente e sem gás) e, entre goles moderados, fiquei entregue aos pensamentos vazios e desapontados.

Traído pela viagem ao mundo da lua, não reparei que já se passava do horário de retorno à labuta. Fui acertar a conta, após uma fila contendo senhoras com quilos de moedas, cartões sem saldo, senhas incorretas, erro de sistema e falta de troco, e voltei voando à agência.

Perto do local de trabalho, percebi, muito em cima da hora, que um carro fazia manobra para sair de uma padaria e não se importava com o que acontecia na rua. Resultado: a iminência deste veículo colidir-se com o meu era latente, há não ser que fosse astuto o suficiente para evitar. E, com movimentos bruscos, consegui. Mas isso não poderia passar impune. O motorista precisava ouvir umas palavras rudes, proferidas por este que vos escreve, em alto e feroz tom. Iniciei a projeção de meu corpo para a parte externa, meus dedos já começaram a operação "posição fuck-off", as cordas vocais aqueciam para o brado retumbante quando, em questão de micromilésimos de segundos, notei que o dito cujo que fazia a lambança automobilística era nada mais, nada menos que o dono da agência em que eu trabalhava.

Pela descrição dos fatos que acabei de executar, vocês devem imaginar que aquele era o último dia de trabalho, já que minha demissão já estava certa. Mas a minha fada da boa energia ficou com dó de mim e me salvou. Com o corpo projetado e a troca de posição dos dedos em forma de empolgada saudação, gritei: Grande, Márcio!!! E ele me respondeu da mesma maneira efusiva.

Resultado: ganhei pontos, a tarde foi mais suave, consegui vaga mais próxima à agência e descobri que a multa nada mais era que um folheto promocional de uma empresa que negocia as multas. É ou não é Entre o Bem e o Mauro?

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