Durma com um barulho desses


Ontem vivi os 9 círculos de sofrimento dentro da Terra como mostra o inferno de Dante. Há muito tempo eu não tinha uma insônia tão cruel como a da noite passada. E o motivo muitos já conhecem muito bem: pernilongos, muriçocas, borrachudos, insetos do capeta, chikungunya da malevolência, aedes do mal agouro. O quarto estava simplesmente infestado destes parasitas do bom sono. E não teve veneno, raquete elétrica ou bazuca que desse jeito. Eles estavam atiçados como se tomassem êxtase misturado com anfetamina e uma dose de galvão bueno e faustão cheirados e narrando a reta final de uma corrida de cavalo. A coisa estava tensa.
Normalmente em minhas noites de sono encontro um ou outro, mas ontem estava demais. E o pior: eles estavam com uma atração fulminante pelo meu nariz, o que me deixava possesso. Foram incontáveis as vezes que levantei e saí a caça deles. E, como diz o ditado, você mata um pernilongo e vem 1000 para o velório.
Ao contrário de outras vezes, quando o sono vencia, casa rasante do inseto em meu rosto era uma injeção de adrenalina que piorava a insônia. Lágrimas de ira corriam como metal flamejante cortando o contorno de meus olhos. Tentava contar carneirinhos, mas eles foram devorados pelo enxame de pernilongos canibais da madrugada errante. Finalmente percebi que não era páreo para estes invertebrados alados. Não adiantava brigar com o sono.
Minha esposa então, sensibilizada com a minha situação e irritada com a batalha sangrenta que estava proporcionando no quarto, receitou que eu tomasse o rivotril, uma espécie de tranquilizante misturado com canabidiol, maracujá, DVD dos melhores momentos das pescas do Terra da Gente e cantos de grilos de mais de 50 países em tributo ao Enya. Não há um ser na face da terra que resiste ao poder deste remédio. Não havia. Acho que os pernilongos tenores se juntaram em um coral e realizaram o Soneto de Natal com o coral super agudo da Orquestra Pernilônica de Campinas e participação da esquadrilha da fumaça deles, com direito a voos rasantes (meu nariz era a pista de pouso).
Não podia prorrogar este sofrimento. Decidi ir à sala para ver TV e aguardar o sono mais derradeiro. Entre um canal de tapetes, bingo na TV, pastor da salvação e rugby na Noruega, acabei ficando na Globo. Eram quase 2h e estava passando o Programa do Jô. Pensei: Legal, vou ver uma entrevista, relaxar, tomar um leitinho e esperar o sono dos justos.
E para minha surpresa, o entrevistado era nada mais do que Carlinhos Brown, que falava sobre a caxirola (aquele artefato barulhento que ele tentou popularizar, sem sucesso na Copa). Para piorar, ele havia distribuído 1 par delas para cada presente no programa e, aos gritos, dizia: Programa do Jôôôô shgvhgwvdhwgedv (barulho de todos movimentando freneticamente a caxirola), Programa do Jôôôô shgvhgwvdhwgedv, Programa do Jôôôô shgvhgwvdhwgedv.
Desliguei a TV e voltei aos pernilongos. Não eram tão ruins assim.

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