Jardineiro cruel


Às vezes o universo dá uma pista da escolha errada que você fez e mesmo assim você insiste no equívoco. Foi o que aconteceu essa semana comigo na escolha do jardineiro. Ele havia passado em casa durante a semana, se apresentou para minha esposa como vizinho e deixou à disposição seus préstimos como cortador artístico de plantas residenciais. Como estávamos precisando, durante semana fui conversar com ele para combinar preço, logística, data, entre outras coisas.
Bati à porta de sua casa e uma mulher me atende. Perguntei se era a casa do Matias e ela confirmou, já dando meia volta para conclamar a sua presença. Sob murmúrios de "porra, mulher, tá atrapalhando minha soneca" ou algo assim, surge um ser proveniente das trevas, bem ao estilo Polícia 24 horas, cambaleando ou de sono ou de bebedeira ou até dos 2 juntos e misturados, sem camisa, aquele shorts adidas da década de 70, o chinelo havaianas original e o bigodinho que só cresce nas extremidades dos lábios e se apresenta: "Ô, patrão, tamo aí na atividade. Prazer, Matias". Uma sequência mais que suficiente para dar meia volta e retornar ao seus afazeres sem dar senhuma satisfação. Mas decidi dar um voto de confiança. E ele prossegue: "Nossa, acabei de voltar de um serviço grande, desculpe o mal jeito". Tudo isso exalando cachaça e acompanhado de um sorriso desfalcado dos principais dentes da boca. Mais um sinal dos astros para que eu revisse a minha decisão. Mas fui cético mais uma vez e segui firme na jornada pelo desfecho dessa história.
E após meia hora dele contando um pouco da sua vida e de suas habilidades como prestador de serviços em hidráulica, elétrica e obras em geral (na verdade, ele ligou o modo randômico e aplicou um looping dessas histórias, repetindo algumas diversas vezes), ele analisou o local, combinamos tudo e chegamos num valor razoável. E, na despedida da negociação, ele apertou minhas mãos exatamente 7 vezes, em uma demonstração clara que aquele dinheiro renderia o porre dos justos no fim de semana.
2 dias depois, na data combinada, ele chega exatamente no horário. Fui recebê-lo e percebi que o modo aleatório em looping ainda estava ativado: começou falando de suas habilidades na construção civil - bem ao estilo de certas mulheres da TV que se intitulam manequins, modelos e atrizes e que estão com vários projetos em vista -, passou por apontar as casas da vizinhança em que ele já prestou serviços (cerca de 90%) e terminou falando a temida frase: deixa comigo que você vai gostar. Eu te chamo pra ver se está do seu agrado. Essa última frase me deixou com o sifonáptero no background do pavilhão auditivo, ou seja, com a pulga atrás da orelha. Mas renovei por mais alguns minutos o voto de confiança.
Não demorou meia hora e ele toca a campainha pedindo para que eu descesse e visse se até aquele momento estava do meu agrado. Fiquei feliz e de certa forma surpreso com a sua atitude, pois ele estava disposto a só continuar com o nosso aval. Ponto positivo. Só que não. Ao chegar na entrada da casa, um cenário devastador, que deixaria um tsunami parecendo uma marolinha. Os arbustos que enfeitavam o muro ganharam um corte bem parecido com o que Ronaldo Fenômeno fez na Copa de 2002, aquele famoso Cascão. Praticamente não sobrou folha verde para contar a história. Minto, na verdade a ponta do último arbusto estava intacta. E ele questiona: "E aí, gostou? posso continuar?". Coloquei a mão no queixo, vesti minha expressão WTF de gala e liberei aquela lágrima que pressionava meus olhos para ganhar a liberdade. Mas fiquei sem palavras por algum tempo para externar ao Edward Mãos de Tesoura Louca. Algum tempo depois consegui dizer: "cortou bastante, né?". Aí foi um festival de desculpas técnico-esfarrapadas-estapafúrdias. Engoli aquela saliva e emendei: "vai, manda bala, pode continuar", já prevendo que não adiantaria contra-argumentar e me apoiando no fato de que a planta voltaria a crescer. Com traumas pelo bullying, mas cresceria.
Mas o universo ainda queria me alertar. Edward Mãos de Britadeira Enfurecida ainda teria que realizar o serviço interno. Cortar a primavera que enfeitava a fachada de casa. Nessa hora eu e minha esposa, com a ajuda da minha sogra, enfatizamos que ele só precisava cortar os galhos secos. Com direito a apontar quais eram. Nada mais. Simples assim. Mas, mais uma vez, errei de não acompanhar o procedimento. E na hora que desci, um cenário ainda mais desolador. Ele em uma escada, segurando um facão trucida cactos, decapitando o que via pela frente. Achei melhor não interromper, pelo bem da minha vida. Mais uns 10 minutos e nada mais restava. Um perfeito trabalho de um artista abstrato e surreal. As heras já eram. E ele conseguiu deixar mais flores secas do que as que coloriam a fachada. Decidi acabar com aquele holocausto, disse que estava perfeito e terminei por ali o serviço. Só o tempo dele recolher os restos mortais.
E, com a expressão de dever cumprido, ele se despede com uma última mensagem: "quando precisar dos meus serviços em hidráulica, elétrica ou qualquer obra, só me avisar. Pode deixar, quando quiser demolir a casa te chamarei, pensei.

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