Nego do cabelo duro


Quem é que nunca participou de alguma tribo, aquele grupo de pessoas com ideologia, gostos e visuais próprios? Eu não poderia fugir à regra e no final dos anos 80 eu acabava de me credenciar para o grupo de headbangers de Campinas ou metaleiros, como alguns errôneamente insistem em chamar os amantes do heavy metal.
Este grupo tinha algumas particularidades: viviam com suas garrafas de pinga ou vinho de 5 litros (pois dinheiro era o que mais faltava) próximos a bares da moda (só para confrontar os playboyzinhos da cidade) ouvindo bandas podres com nomes tão podres quanto (Sarcófago, Putrefatus, Feto Anal e Death eram alguns dos mais leves), com suas vestimentas pretas e surradas, além de cultivar vastas cabeleiras que seriam balançadas freneticamente nos shows.
E é aí que a coisa pegava pra mim. A maldita cabeleira. Não que fosse item imprescindível no ingresso ao grupo, mas para mim não fazia sentido me vestir todo de preto, tomar sangue de boi quente e fazer cara de mal se meu cabelo era de bom moço da cidade do interior. Decidi, então, deixar minha peruca fermentar. Mas aí é que estava o problema. Meus fios de cabelo ou desconhecem a lei da gravidade ou meu DNA possui genes de pavão, pois ele crescia para cima e armado. Se eu fosse ao zoológico, ou me prenderiam na jaula dos leões ou algum pássaro exótico se apresentaria para copular comigo.
Mas eu precisava ser um típico headbanger e confiei no tempo para ajeitar meus cabelos. E sem medo de ser feliz. Os meses se passaram e o que se via era desolador. Parecia que tinha um leque de pelos na cabeça. E como não havia chapinha na época (mesmo que existisse eu me recusaria a usar) tentei uma solução caseira: usar elástico para prender. Por sorte eu não tenho mais fotos daquela época, mas vou tentar descrever contando o fato que é a razão desta crônica.
Coincidentemente nesta fase de mudança de pelagem tive que tirar fotos para colocar em minha primeira carteira de trabalho. Apesar da constante insistência de minha mãe para que eu cortasse o cabelo antes de fazer as fotos, decidi ir como um autêntico headbanger. E como um exímio roqueiro revoltado contra o sistema deixei também a barba tomar conta de meu rosto. Mas não pense você que era aquela barba de modelos internacionais. Eram penugens espalhadas pela face, como arbustos no meio do deserto do Saara.
Cheguei ao local onde faria as fotos e em menos de 10 minutos estava resolvido. Mas como estava nos anos 80, as fotos não ficavam prontas na hora, só no dia seguinte. Tudo bem. Lá estava eu no dia seguinte para pegar as 3x4. A atendente desceu uma escada em direção ao que imagino fosse o laboratório e de lá começou um diálogo que foi mais ou menos assim:

Atendente - Ficaram prontas as fotos daquele cara feio com cabelo de piaçava e barba de bode?
Fotógrafo - Putz, ele veio pegar? Tava tão bom usar elas para espantar pernilongo. hahahaha
Atendente - Achei que ia usar de espantalho na sua horta. hahahahaha
Fotógrafo - Acho que o espantalho ia assustar com a foto do coalhada. hahahahahaha
Atendente - Sorte que é 3x4, se fosse um poster iam achar que essa era uma loja de fantasia pro halloween. hahahahaha
Fotógrafo - Imagina meu medo de revelar essas fotos aqui nessa escuridão. hahahahaha
Atendente - Será que ele vai usar as fotos para a carteira de trabalho para levar no playcenter nas noites de terror? hahahahaha
Fotógrafo - Não sei mas olha elas aqui. buuuuu ahahahahaa
Atendente - Socorroooo. hahahahahaa. Sai capeta. hahahahaha
Fotógrafo - Leva logo senão ele vai ficar nervoso com a espera. E imagina a cara dele de nervoso hahahahahahaha

Imagino que depois dessa, a atendente subiria as escadas para me entregar as fotos. Mas eu não estava lá para ver. Fui para o cabeleireiro na rua de baixo e dei fim ao sofrimento. De volta a cara de bom moço.

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