O chefe mandou


A maioria de vocês não me conhece pessoalmente, muito menos a minha história, mas há cerca de 20 anos atrás eu tentava a vida como músico. Tinha minha banda de rock pesado, gravamos um CD em estúdio, chegamos a nos apresentar em palcos clássicos do rock em São Paulo e obtivemos críticas positivas em algumas revistas do gênero. O tempo passou, mas o sonho ficou pelo caminho. Cada um seguiu seu rumo e hoje cá estou como um publicitário.
Mas, recentemente, uma pequena chama do passado se acendeu e a minha esposa comentou que um colega de trabalho dela tocava guitarra e se interessava em voltar a ter uma banda, só por hobby. Bastaram 1 churrasco, 4 cervejas, 10 palavras, 1 data e estávamos agendando o primeiro ensaio.
Hoje estamos com cerca de 2 anos de banda. São cerca de 30 clássicos do rock ensaiados. Mas isso não vem ao caso.
Em meados do fim de 2013, com quase 1 ano de ensaio, tivémos a primeira real oportunidade de nos apresentarmos para o grande público….ok, médio público… tá bom, ok, era um pocket show para um pocket público. O fato é que minha esposa, em um autêntico gesto Estado Islâmico, sugeriu que a banda tocasse na festa de fim de ano da empresa - mais especificamente do setor que ela trabalha - em um lugar, no mínimo, pitoresco: a casa do chefe dela, em um palco montado na sala de visitas. Seu emprego estava em risco iminente. Sua cabeça estava prestes a ser decapitada no âmbito profissional.
Aqui vale uma colocação: o público presente, basicamente acima de 40 anos, se dividia em 3: pessoas que odeiam rock, pessoas que não conhecem rock e as esposas dos músicos.
Antes mesmo de subirmos ao "palco", as pessoas já sugeriam músicas que passavam pelo romantismo de Guilherme Arantes, o arrocha de Gustavo Lima e as raízes sertanejas de Chitãozinho e Xororó. Mesmo vendo que nosso visual não condizia com as canções pedidas. A solução era esperar o efeito da cerveja nos tornar mais agradáveis aos ouvidos dos presentes.
Certa hora vejo um cara derrubar um copo de cerveja em uma mulher, os 2 rirem e todos gritarem "aeeeeeee". Era o sinal de verde para começar o show.
O dono da casa e chefe da porra toda faz um breve discurso e anuncia que a banda iria começar. Todos os 30 presentes se posicionaram à frente do palco, sentados, e 2 casais se preparavam para balançar o esqueleto, como se Ray Connif fosse entrar.
Pra começar, lançamos um Creedence, algo mais leve, para não assustar. Mas entre os pratos da bateria enxerguei alguns olhos esbugalhados como se aquilo fosse um ritual macabro, só esperando o bode albino para o sacrifício. Um ou outro saindo à francesa e o casal que balançaria os esqueletos largou os ossos e ficou só com a caveira.
Estava programado o show em 2 partes com um intervalo no meio, mas estava crendo que a segunda parte não ocorreria. A cada música tocada era uma pessoa saindo até que sobraram um senhor bêbado olhando aquilo como se fosse um presépio de Natal, um outro senhor dormindo e o casal dançando freneticamente. Até minha esposa sumiu do raio de visão. Era hora de anunciar o intervalo. Foi quando recebemos mais aplausos.
Meia hora passou e voltamos ao palco sem avisar ninguém. Tentamos começar com Queen para agradar alguém. Foi quando o dono da casa e chefe da bagaça geral pediu para parar pois era hora dos parabéns (sinceramente não me lembro que ocorreria um aniversário, acho que arrumaram um bolo qualquer só para impedir a continuidade do som). Foi um parabéns bem ao estilo Pink Floyd, quase 2 horas de duração. Eu começava a acreditar que queriam ganhar tempo.
Terminado o bolo, voltamos ao palco, quando tivemos uma surpresa: o senhor dorminhoco da primeira metade do show estava posicionado no palco, com o microfone em mãos. Cada um pegou o seu instrumento - sem puplo sentido - sem entender nada. Foi quando ele se virou para nós e disse: vamos mandar um Roberto Carlos, ok?
E assim o show teve prosseguimento. Muito Roberto Carlos, Julio Iglesias e Beatles, 30 pessoas dançando sem parar, o dono da casa e boss da mother fucker toda dando uma palhinha e o casal balançando o esqueleto como se não houvesse amanhã. Estava começando a festa.

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