Pe-peixinho


Essa aconteceu na minha época de faculdade. É uma história recheada de drama e muita emoção a flor da pele.
Morava com mais 3 pessoas e uma delas, o responsável pelas contas e gerente da república, tinha um hobby que cultivava com muito carinho: criar peixe. Não aqueles peixes exóticos, coloridos, de escamas com wi-fi embutido ou movimentos que imitam o vôo de uma harpia do bico-cor-de-telúrio. Peixes simples. Ele tinha um aquário chinfrim, de 0,001 m2 e um beta nele. Nada de mais. Mas a adoração por ele transcendia o amor carnal. Era possessivo, avassalador, lúdico.
Particularmente eu não gosto de peixe. Não vejo a menor graça, pois não é possível passear na rua, jogar a bolinha para ele buscar, muito menos pedir para dar a patinha. Podia ser um beta ou uma bola de gude dentro do aquário, não daria a mínima para ambos. Mas, enfim, ele gostava.
Havia um detalhe no perfil dele (o dono, que não vou revelar o nome não por preservar a identidade, mas por não lembrar mesmo) que deu toda uma graça nessa história: ele era gago. E isso tornava muito fofa a conversa com o ser aquático. "pe-peixinho bu-bunitinho, na-nada, na-nada de mansinho". Sim ele tinha diálogos infantis com o be-betinha.
Pois bem, certa vez o inevitável aconteceu: o dono do peixe precisaria viajar e não poderia levar o pe-peixinho. E os outros 2 moradores também estariam ausentes. A difícil missão de cuidar do pe-pe ficaria a meu cargo. Foram 3 dias de um curso intensivo de como cuidar dele. Na verdade não precisaria tanto, não fosse pelo fato deu ser um estudante de publicidade, sem trabalho, usuário de canabidiol natural e mais desligado que…é….o que eu tava falando mesmo?
Ele me passou, nos seus mínimos detalhes, todo o processo de tratamento da água, horários e dosagem da comida, limpeza do aquário e até ph da água. E, com muito aperto no coração, se despediu do peixe e me disse, sem gaguejar: cuida bem dele! Nem na exclamação ele gaguejou. A porra era séria mesmo. Ele ficaria 3 dias fora.
Bastou ele virar a esquina e já convoquei amigos da faculdade para uma festinha na casa. E entre festas, saídas, aulas, dormidas, mais festas e menos aulas, eu simplesmente esqueci o pe-peixinho. Não por maldade, mas esqueci mesmo. Ele não ficava em um lugar de tão fácil visualização assim…acho. Posso ter colocado uma toalha em cima do aquário, feito ele de vaso ou até ter servido aos amigos como coquetel de frutos-do-mar, mas o fato é que não me ocorreu a responsabilidade que foi me dada pelo dono da república. Talvez tenha pensado: ah, 3 dias, ele sobrevive sem cuidados.
Os 3 dias se passaram, era uma segunda-feira, e totalmente largado no sofá percebi um recipiente com água turva no canto da sala. Fui averiguar e o pior aconteceu. Estava lá um corpo estendido na água. O peixe estava morto. Não deu nem tempo de tentar pensar em uma solução e o dono girava a chave da casa. Era hora do sermão com a maior duração de todos os tempos.
Me-me-me-me-me-me-me-me-meu pe-pe-pe-pe-pe-pe-pe-peixinho mo-mo-mo-mo-mo-mo-morreuuu, bu-bu-bu-bu-buáááá! Uma explosão de sílabas repetidas que fariam inveja aos blocos de carnavais de Salvador. Foram cerca de 1 hora de impropérios, lições de moral e dramaticidade. 1 hora pois ele era gago, senão seria uns 20 minutos.
No fim, saí da república. Definitivamente. E antes de pensar em onde morar, fui comer….me deu uma vontade de um peixinho frito, hummmm.

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