Pombo-correio não correspondido (crônica retrô)


Essa é uma improvável história de amor que aconteceu na romântica Buenos Aires. Como disse na crônica passada, minha lua-de-mel aconteceu no Chile e Argentina. E foi na capital portenha que ocorreu esta paixão impossível e obviamente não-correspondida.

Tudo começou no bairro da Recoleta, onde encontram-se os mais charmosos cafés de Buenos Aires, bem ao estilo europeu. Após uma visita ao Cemitério de La Recoleta, sentamo-nos, eu e minha esposa, em um aconchegante café para bebericarmos uns cocktails e degustarmos uns quitutes. O clima era propício para o romantismo e a curtição a dois. Fizemos o pedido e jogamos conversa fora.

O local estava ainda vazio, já que era cedo para um almoço e tarde para o brunch (breakfast + lunch, muito chique esse termo). Antes de o pedido chegar, serviram-nos uns tira-gostos como castanha, pãozinho e batatinhas estilo Ruffles. Foi aí que a coisa mudou. Provavelmente atraídas pelos aperitivos, pombas começaram a se aproximar do café onde estávamos. Logo elas rodeavam nossa mesa, na esperança de abocanhar alguns quitutes errantes lançados ao chão.

Em questão de minutos eram dezenas de pombos aterrisando na Recoleta. Mas uma em especial merece o título de protagonista desta crônica. Era uma pomba obesa, visivelmente solitária e excluída socialmente, já que ela não estava com o bando, e faminta. Aquele olhar tristonho escondido sob as asas calejadas me comoveu. Decidi lançar um pedaço de pão para acalentar seu coração vazio. Este foi meu erro.

A pomba, após saborear um nobre pão portenho feito com o trigo da gelada floresta campestre sul-polar da Patagônia, lançou um olhar hipnótico sobre mim. Estava me metendo em uma enrascada pombástica. Ela confundiu meu gesto altruísta com amor fulminante. Sua carência fez com que o lóbulo esquerdo enviasse uma mensagem errônea aos seus neurônios, dizendo que eu estava querendo me aproximar dela. Não deu outra. A pomba veio com um amor alado intenso em direção a nossa mesa. Como não percebi o que se passava na sua cabecinha, joguei mais farelos panificados.

Aí ela virou a pomba-gira, uma devassa destruidora de lares. Nessa hora minha esposa assustou e disse que não era para dar comida a ela. Tarde demais. A rola (pomba-rola, quero deixar bem claro) veio para cima da mesa ao lado da nossa. Eu tentava afastá-la com um abanar de guardanapos, mas ela estava enlouquecida. Tentei mostrar minha aliança para ela, comprovando que estava em lua-de-mel e que este amor era impossível. Em vão. Tentei ser mais rude, fazendo movimentos mais bruscos e ameaçando agredi-la caso insistisse na aproximação. O efeito foi contrário. Era uma pomba de malandro. Adorava apanhar.

Aquela situação já estava bem constrangedora quando ela finalmente invadiu nosso espaço. Foi a gota d´água. Olhei para os olhos dela, bem fundo, e disse: Não sou para seu BICO e não tenho PENA de você. Você não é uma pomba? Então aja como tal, me deixe em PAZ. E não adianta me seguir que estou em lua-de-mel e não quero ver você em nosso NINHO de amor. Eu e minha esposa somos os pombinhos dessa história.

E assim ela voou, cabisbaixa, pelos céus de Buenos Aires. Desculpa, gente, não poderia dar um final feliz nessa história.

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