Because i'm happy

Essa crônica começou em meados de 2013 e teve seu desfecho exatamente no dia de hoje. Tudo teve início em Julho de 2013, quando fui fazer o check-up anual. O médico pediu os exames de sangue de praxe e um ultrassom do abdomen para ver como estavam meus órgãos. Fiz tudo certinho, mas o resultado de um destes exames me deixou com a pulga atrás da orelha. Foi detectado um pólipo de 0,6 cm em minha vesícula. O suficiente para um desesperinho tomar conta de mim. Até a data do retorno ao médico foi uma tortura. Pesquisando na internet, o que era desespero se tornou o caos na Terra: câncer, invalidez, infecções, nomes impronunciáveis e até a morte estavam associados à palavra pólipo. Sentia que meus dias estavam contados.
No dia do retorno ao médico estava tremendo algo em torno de 7,2 na escala Richter. O alerta de tsunami já soava em minha mente. E, para completar, o doutor estava atrasado. Foram 47min32seg de agonia extrema até que a secretária anunciou meu nome. Entrei na sala, pálido como um urso polar albino na neve se lambuzando com chocolate branco, não disse um "a" e simplesmente entreguei o resultado dos exames. Com a mesma sensibilidade de um ogro, ele me disse exatamente assim:
- Hummm, temos um pólipo... (como se não fosse o suficiente minha depressão aguda com relação ao fato, ele me responde com um sarcasmo digno de um imperador ditando sua sentença de morte ao fidalgo). Vamos fazer o seguinte. Daqui 1 ano você repete o exame. Se aumentar o tamanho, vamos ter que retirar a vesícula.
Pronto! Um convite ao suicídio. Uma porta aberta ao AVC. Um tapete vermelho a uma convulsão. Um save the date ao encontro com a Dona Morte. 1 ano de um sofrimento desigual. 1 ano convivendo com o fantasma do pólipo de lucifer. 365 dias servindo de humilde residência para este vagabundo que pretende arrancar a minha pobre vesícula e devastar a minha alma. Mas eu precisava seguir em frente e não pensar mais nisso. Não foi fácil.
De tempos em tempos vinha o calafrio. Vinha a impressão que o pólipo já estava com 1m80 e caminhava para a minha total destruição. Que meus órgãos eram trucidados. Que minha vesícula sairia pela boca. Sonhos com pólipos invadindo a Terra eram comuns. Enfim, minha vida nunca mais foi a mesma.
Passados exatos 330 dias era hora de pensar em refazer os exames. Mas me faltava coragem. Fui postergando. Até que minha esposa deu aquela força para fazer "Quer morrer, diabo? Faz logo essa merda seu frouxo!". Marquei o médico. E ele me disse:
- Está sentindo enjoo ou náusea?
- Não
- Então vou te dar a guia em branco pra você fazer quando quiser. (isso foi em julho de 2014).
Confesso que fiquei mais tranquilo por não ter enjoos e náuseas. E decidi adiar o exame até que algum sintoma me convença a fazer. Mas a maldita pulga que se encontrava atrás da orelha resolveu dar umas picadas. Certo dia fui comer um lanche e eis que o Sr. Enjoo e o Mr Náuseas resolvem dar o ar da graça. Pronto. A sombra da foice da Dona Morte escurecia o ambiente. Já ouvia a nobre e temida dama dizendo: "vou levar a sua vesícula. muahauahamaua".
Mas finalmente, entre enrolações, temores, mais enjoos e náuseas, resolvi começar 2015 sanando esta dúvida (sim, 6 meses de atraso). Precisava ir com a bexiga cheia, o que contrastava com minha intensa vontade de desaguar de tão nervoso.
Cheguei exatamente no horário e fui atendido quase que prontamente. Entrei na sala onde seria feito o ultrassom e me deitei na maca, a espera do profissional que faria o procedimento. Sala escura, barulho de máquina hospitalar e vozes de enfermeiras ao fundo. Receita perfeita para um princípo de infarto. Foram intermináveis 5 minutos até a médica aparecer. E para não me prolongar muito, vou transcrever trechos do que ela ia dizendo e o que eu estava interpretando disso.

Médica - Oi, tudo bem?
Eu (interpretando) - Porque? O que quer dizer com isso? Não pareço bem? Pode falar, sou forte.

Médica - É exame de rotina ou tem algo que queira ver?
Eu (interpretando) - Será que tem algo? Você jura? Quer que te conte mesmo? Minha expressão de pânico agudo de 7o grau não te faz suspeitar de algo? Este ser polipal de 5 metros saindo de meu ventre não fez você estranhar algo?

Médica - E a família, vai bem?
Eu (interpretando) - Porque? O que quer dizer com isso? Já devo comunicar a família? Já devo providenciar o testamento?
...
Médica - hummm. (vendo a vesícula e localizando o pólipo)
Eu (interpretando) - Ai meu Deus, um monstro na tela. Ele está se mexendo, está caminhando para rasgar os órgãos em um dia de fúria. Não cutuca ele, por favor. Adeus, mundo cruel.
...
Médica - Ok. (e se encaminhava para a porta)
Eu (agora falando mesmo) - Opa, espere aí. E aí, o que tem a me dizer?
Médica - Ah, desculpe. Tá tudo bem, ele não aumentou, não há motivo para cirurgia. E de resto está tudo ok.

Mijei por todos os poros de alegria. Vesti minha roupa e saí da sala, dando um discreto, quase imperceptível pulinho de alegria, aqueles bem gays mesmo; dane-se, estava feliz. E começou o clipe de Happy, essa música que infestou o mundo.

Tomei um café tão quente que queimei a língua, mas não me importei
Because i'm happy iiiii iiiii
O estacionamento cobrou 15 reais, eu só tinha 10, mas tudo bem
Because i'm happy iiiii iiiii
Peguei um congestionamento, me atrasei no trabalho, mas ok
Because i'm happy iiiii iiiii
No caminho um folgado me fechou, quase bati o carro, mas beleza
Because i'm happy iiiii iiiii
Ao sair do carro tinha um cocô de pombo grudado no capô, mas tranquilo
Because i'm happy iiiii iiiii

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