Cupim de um cara de pau


Eu tenho uma churrasqueira em casa mas não sei fazer churrasco. Pronto, falei. E digo mais: eu não gosto de pilotar a churrasqueira. E vou além: se acontecer um churrasco em casa e além de mim só estiver mais um homem, é ele quem vai comandar a grelha. Ele pode ir preparado para negar essa função, mas basta alguns minutos e ele já estará com o espeto na mão, a faca na outra e o pano de prato no ombro. Modéstia a parte, sou um ninja para me esquivar disso. Seja por dó, seja por raiva ou por qualquer outro motivo, eu vou escapar de ser o churrasqueiro na minha própria casa. Isso é fato e deve ser levado em conta se a sua intenção é não sair defumado da minha casa.
Eu sei que é feio falar isso, que eu deveria ser, por hierarquia, o anfitrião do evento mas, acreditem, para o bem de todos os convidados, é melhor que outro assuma essa bronca. Primeiro que chego a levar 1 hora para acender o carvão (isso quando não gasto 1 litro de álcool e mesmo assim o carvão nem esquenta). Segundo que não tenho paciência para ficar cortando, verificando o ponto da carne e servindo as pessoas. Até gosto de ficar próximo à churrasqueira, mas para conversar com o chief enquanto belisco as carnes e beberico minha cervejinha. É o cenário perfeito para mim.
Só que tal atitude não poderia escapar de duras críticas por parte da esposa e de amigos, afinal, eu sou o dono da casa e realmente admito que é constrangedor eu oferecer o churrasco e me esquivar de fazê-lo. Chega a ser deselegante. Por isso, recentemente, decidi mudar este quadro e mostrar quem está no comando da grelha.
Organizei um churrasco com amigos de infância. Cerca de 20 pessoas. Um desafio perfeito para provar minha capacidade como churrasqueiro gourmet. Limpei a grelha, peguei os acessórios, afiei as facas. Parecia o Rambo realizando o ritual de preparação para exterminar os vietcongs. Um verdadeiro holocausto da família Friboi estaria prestes a acontecer. Nem Tony Ramos poderia me deter. Roberto Carlos nenhum seria capaz de controlar meu ímpeto gourmetizador. Churrasqueiro de qualidade tem nome, Mauro.
Os convidados foram chegando, as conversas foram rolando, o chopp fui tomando e chegava o momento que separava o homem dos ratos. Era como se todos olhassem para mim cobrando: e aí, estamos com fome. Quando vai começar o churrasco? Aquela pressão estremeceu minhas pernas. Já via a orelha do Mickey crescendo em minha cabeça. E a frouxidão tomou conta de mim sob os olhos depreciativos dos convidados. O último suspiro veio com a proposta de alguém acender a churrasqueira, meu principal calcanhar de Aquiles, e eu tentar conduzir na sequência.
Em certa altura, percebendo meu total despreparo na arte de churrascar, um amigo resolveu tomar as rédeas da bagaça toda. Com uma habilidade ímpar, aproveitou todos os espaços da grelha e, com maestria, salvou o evento.
Mas não pense que ele fez isso por prazer. Não. Assim como os outros, ele só queria se divertir e comer. Justo. Mas lembrem-se: eu sou um ninja da arte de sair à francesa pela esquerda. Logo ele estava com o espeto na mão direita, a faca na esquerda e o pano de prato no ombro. Precisamente como eu afirmei na linha 4 do parágrafo 1 desta crônica.
Já conformado com a derrota e passado algum tempo, fui visitá-lo na churrasqueira. Ele me pegou pelo colarinho e, em uma tentativa de me fazer tomar gosto pela churrasqueira, disse que ia ensinar uma receita diferenciada de cupim. Por incrível que pareça fiquei interessado. Talvez era a estratégia que precisava para ser um anfitrião melhor. Eu nunca havia visto tanto cuidado e amor com uma receita. Imediatamente me tornei seu assistente. Não perdia uma vírgula. Rolou até pincelada de óleo de girassol para preservar a sua textura e dar uma crocância especial em sua capa. Ele praticamente fez amor com o cupim antes de conduzí-lo, envolto em um imponente papel alumínio, à brasa eterna. Agora era hora de deixar o tempo e do fogo cuidar do resto. Enquanto isso, aos poucos, fui ficando mais presente à grelha. E deixei meu amigo livre para curtir os bons momentos entre os convidados.
O tempo foi passando, a conversa foi rolando e o chopp fui virando. E o amigo churrasqueiro voltou já perguntando: Como está o cupim?
Cupim? Nossa, eu havia esquecido completamente. Bem que eu tinha percebido uma luz prateada na grelha, mas o álcool me fez acreditar que poderia ser a estrela de belém, um ovni que acabou de fazer cristalização na lataria ou até mesmo um gnomo fantasiado de surfista prateado. Tal desleixo provocou a fúria do meu amigo. E quando ele abriu o papel alumínio o desapontamento foi fulminante. O cupim se transformou em uma pedra preta. Sem exageros, não conseguíamos cortar o defunto carbonizado. Foi praticamente um ponto final no churrasco. Recolhemos as carnes que ainda estavam na grelha, servimos e ficamos no chopp.
No dia seguinte, após recolher os indícios da batalha sangrenta e carnal que foi o churrasco e levar o lixo na rua, uma visão aterrorizante: o cupim estava ali, todo queimado, no meio da rua. Como ele foi para ali? Nunca saberei. Só sei que posso ter várias missões na terra. Menos a de fazer churrasco.

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