E vejo flores em você


Essa aconteceu comigo em meados de 2003, quando morava em Fortaleza/CE. Na época eu era um típico jovem errante, buscando um lugar ao sol, desenganado com as agruras da profissão e deixando os ventos do destino me levar. Após 1 mês me adaptando à capital cearense e finalmente com emprego garantido, decidi procurar uma residência, já que estava temporariamente na casa de um amigo, que gentilmente me acolheu. Não demorou muito e logo surgiu uma oportunidade de moradia em um local privilegiado, muito perto da beira-mar, os principais serviços a poucos metros e um preço muito convidativo e acessível para um moribundo como eu. Era uma espécie de prédio compartilhado, de uns 3 andares e vizinhos muito receptivos. O local perfeito.
Não demorou e logo estava enturmado com a galera. Ao mesmo tempo em que eram mais tranquilos e respeitosos, gostavam de uma boa farra e cada dia a bebedeira era na casa de um, mas sempre aos fins de semana, afinal, todos trabalhavam.
Passado alguns meses, um novo morador veio para a última vaga do prédio. Um jovem gaúcho, que logo se apresentou e ofereceu um churrasco de boas vindas. Já ganhou a simpatia de todos logo de cara e logo se integrou à rotina do prédio. A paz reinava e me sentia no paraíso na terra do sol.
Mas como este blog se chama Entre o Bem e o Mauro, precisa necessariamente ter um tempero que ameace esta paz. E foi com requintes demoníacos.
Algum tempo depois, o gaúcho começou a recusar os convites para as tradicionais bebedeiras dos fins de semana. E quando ia, ficava um pouco quieto, na dele. Como bons amigos e companheiros de residência, perguntamos se ele estava passando por algum problema. E ele prontamente negou, como se escondesse um segredo terrível. Não demos bola na época até que, em uma sexta-feira, cheguei para tomar a cerveja dos justos e fui interceptado pelo vizinho ainda na porta do prédio. Afoito e ofegante ele me dizia: "Cara, não entra aí, o gaúcho tá possuído". Rindo e sem entender, tentei seguir até meu apê. E o vizinho me puxa pelo braço: "Mauro, não entra, o gaúcho tá possesso de raiva e disse que vai matar todo mundo". Pronto, ele conseguiu minha atenção.
Após uma curta conversa, o vizinho me explicou que o moçoilo apareceu no prédio visivelmente alterado, provavelmente por bebidas e drogas pesadas, e começou a gritar gratuitamente que odiava todos no condomínio, que éramos um bando de mauricinhos motherfuckers coxinhas do ceará, um monte de estrume oriundos das profundezas do vaso sanitário de Iemanjá, um apanhado de coliformes fecais e crias de raparigas com doenças venéreas, entre outros termos impronunciáveis. E todos os termos terminavam com um brado retumbante: "Vou matá-los, bastardos".
Não demorou muito e os vizinhos se reuniram sem saber o que fazer até ouvir um "cataploft!". O gaúcho caiu, desmaiado. Logo ele foi levado a um pronto-socorro e após algumas horas de glicose, estava liberado.
Errôneamente pensamos que foi somente uma bebedeira além da conta. O gaúcho-exú não era mais o mesmo. Nos evitava, mas ficava na dele. Seguimos assim a rotina do prédio.
Dias depois percebi um barulho estranho que vinha do apartamento dele, que ficava no térreo. Mas não dei muita bola. Mas não demorou muito para eu avistar o motivo. Foi aterrorizante, malígno, luciferiano. Ao olhar pela janela do quarto naquela manhã, avistei algo que fez meus neurônios entrarem em polvorosa. Simplemente um buraco estava sendo cavado no quintal dele. Mas não era um simples buraco, era claramente uma cova. Sim, amados leitores, o gaúcho-tinhoso estava preparando o lar eterno de algum desafeto, os sete palmos do próximo infeliz que deixaria este plano. Como um raio, retirei-me da janela, mais pálido que Hermeto Pascoal na neve com anemia. Muitas perguntas assombravam minha cabeça. Voltei a olhar a cova para fazer a medida e comparar com a minha altura. Já me via lá, segurando flores do campo e com furos por todo o corpo enquanto peritos retiravam quilos de terra e os paparazzis faziam as fotos que logo circulariam pela internet em algum site sensacionalista. Minha vida não seria mais a mesma após essa visão.
Ficava mais tempo na rua e quando voltava pra casa trancava a porta com a força de um homem condenado. Os happy-hours de fim de semana já não aconteciam mais e toda manhã eu acordava com o ensurdecedor som do enterrar da pá na terra. E a cada olhada pela janela, a cova parecia estar em contagem regressiva para me receber.
Cada tocada na campainha de casa era um frio na espinha, cada vez que meu nome era pronunciado por um vizinho, uma prega se soltava do meu fiofó. Minha vida se tornara um pesadelo. Já não conseguia discernir o que era real ou sonho. E resolvi tomar uma atitude.
Naquela ocasião, já não estava tão bem profissionalmente, o comodismo tomava conta de mim e precisava de um empurrão para ou mudar o rumo das coisas lá, ou mudar o rumo de volta pra casa. E a cova foi determinante para o fim de um ciclo. Voltei para minha terra natal antes que fosse para outra terra. Aliviado, feliz.
Meses depois, encontrei um antigo vizinho em uma rede social e logo começamos a conversar. A cova foi o assunto inevitável. Após dezenas de kkk's, ele revelou: "Você não vai acreditar. Não era cova, ele estava fazendo um jardim no quintal. Tá muito bonito e florido. E ele até voltou a se enturmar com a gente. Explicou que tava com problemas pessoais, mas que já passou". Isso mesmo, queridos, um jardim florido. Que fofo!

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