Noite de terror


Era para ser mais uma noite tranquila de verão. Mas não foi. Muito longe disso. E as sequelas se perpetuaram. Fica até difícil relatar o fato sem a companhia do Rivotril. Uma equipe de psiquiatras e cardiologistas, com o desfibrilador a postos, me acompanham enquanto escrevo. Sensores monitoram, via satélite, meus sinais vitais. Um esquema digno de reality show foi montado para preservar minha integridade física e mental. Neste momento sou um frasco de nitroglicerina que pode ser acionado a qualquer momento, mandando tudo pelos ares. Preciso medir minhas palavras. Ok, há um certo exagero. Ok, vou contar o que aconteceu.
Neste fatídico dia, mais para o final dele, fui às compras no Carrefour (faço questão de citar o estabelecimento, pois ele é a origem de tudo isso). Era uma época que o governo proibia a utilização de sacolas plásticas, pelo bem da natureza. Sendo assim, o Carrefour (maldito!) disponibilizou caixas de papelão para armazenar as compras. Como a minha compra não foi muito grande, consegui colocar tudo em apenas 2 delas. E fui pra casa.
Chegando em meu domicílio, guardamos as compras e deixamos a caixa no canto da cozinha. Tomei banho, jantei e lá pelas 23h fui dormir, pois dia seguinte era dia de labuta brava. Aqui vale uma informação complementar que ajuda a dimensionar o que ocorreu a seguir: eu morava em uma casa de menos de 50 m2. Os cômodos praticamente eram uma coisa só, de tão pequeno. E o quarto, cômodo protagonista e mocinho da história, ficava a menos de 5 metros da cozinha, cômodo protagonista e vilão da história.
Antes de dormir, eu e minha esposa temos o costume de ver um pouco de TV na cama, até o sono suplicar por uma boa noite de descanso. E assim foi. Por volta da meia noite desliguei a TV e a casa ficou entregue ao silêncio dos justos. Até o tradicional grilo da madrugada não emitia qualquer sinal sonoro. Dei aquela ajeitada de corpo no colchão até ele me envolver completamente, aquele sorriso de boa noite e o último suspiro antes de entrar na fase REM do sono…..zzzzz…..zzzzz….cablum. Cablum?
Sim, cablum. Acordei assustado. Será que eu pulei da fase REM pro sono profundo e sonhei? Não dei a devida importância e voltei ao sono….zzzzz…..cablum, plac. Plac? Agora a porra ficou séria. Que barulho seria aquele? Levantei da cama em posição de ataque. Mas antes precisava saber de onde vinha o barulho para não ser surpreendido pelo inimigo. Logo, para minha aflição, percebi que vinha de dentro de casa. Mais especificamente da cozinha. Com passos lentos e leves fui em direção à porta. Acendi a luz, meus olhos me guiaram imediatamente para as caixas de papelão e…cablum, plac, tudum. A caixa balançava freneticamente de um lado para o outro. Ahhhh! (grito de susto, mas não afeminado, quero deixar claro).
Assustada, minha esposa pergunta o que aconteceu. Após recuperar o fôlego e pensar em possibilidades, a conclusão parecia óbvia: era um rato. Barata não faria esse barulho, vento não era pois a janela estava fechada, a menina do exorcista sendo possuída também creio que não. Provavelmente o rato já estava na caixa no Carrefour (ah, te mato se te encontrar, Carrefour) e agora queria se livrar dos papelões e fugir para um local seguro.
Nessa hora refleti: Porque Walt Disney decidiu que um rato seria o seu personagem principal? E porque fez tanto sucesso? Um bicho nojento, assustador, demoníaco, cablum, plac, tudum, tudum, páá, ordinária. Cacete, rato cumpadre washington, estou refletindo, dá um tempo!
Estava com um problema e tanto para resolver. De um lado, um rato desesperado e fatalmente furioso para sair. De outro, a esposa esperando uma atitude digna de um macho-alfa-predador. Aquela pressão era cruel. Cada cablum na caixa era comparável aos passos do Tiranossauro Rex em Parque dos Dinossauros. Estava visivelmente intimidado, sem saber o que fazer. Fiquei estático na porta durante bons minutos. Apenas com o chinelo em mãos. E cada cablum gerava mini-enfartos do miocárdio em mim.
Já no alto da madrugada, ainda pensando em uma estratégia para resolver o imbróglio, a esposa, impaciente, determina que eu resolva a situação de uma vez por todas. Foi quando o cablum simplesmente cessou. Poderia ser uma boa notícia, significando que ou ele morreu ou saiu da casa. Mas o mais provável é que ele conseguiu escapar e vagava pela casa. Para meu total desespero. Ele se tornara um inimigo invisível. E furioso. Não conseguia conviver com o risco de ataque iminente. Este medo fez surgir pequenas alucinações. Qualquer alteração de luz poderia ser o maldito roedor se aproximando. Me senti no filme do Batman nas cenas onde o inimigo aproveita a escuridão para atacar.
Por volta das 3h da madrugada (sim, amigos, fiquei 3 horas na porta do quarto) tive que tomar alguma atitude drástica. A esposa já pensava nos documentos do divórcio e eu precisava provar a todos que sou capaz de vencer um simples rato. Mas faltou coragem. Tranquei o quarto, coloquei panos na parte inferior da porta para não sofrer uma invasão, e contei com a luz do dia para recuperar o posto de homem da casa.
Claro que não dormi, o cablum acabou e o cansaço me fez ficar irritado. Logo, os primeiros raios de sol entram pela fresta da janela, o galo canta e o espírito guerreiro toma conta de mim. Abro a porta e reviro a casa. Nem sinal do maldito. Provavelmente achou a saída e foi para nunca mais voltar. Deve ter sentido o odor do meu ódio. Sorte a dele.


Comentários

  1. Adorei!!!!!!!! Vivi cada palavra lida. Tenho PAVORde rato, lagartixa , então.......

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  2. É, espero nunca mais passar por isso.rs

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