Teatro alternativo (crônica retrô)


Um dos maiores programas de índio que a humanidade já desenvolveu é o teatro alternativo, aquele recheado de papo-cabeça, diálogos sem nexo, exagerados movimentos e expressões e público cult. Desculpem-me os amantes desta forma artística, mas isso é muito louco para minha cabeça. Por isso, resolvi prestar um serviço aos roteiristas e diretores de teatro alternativo de primeira viagem.

Como fazer um roteiro de teatro alternativo, estilo papo-cabeça, em 10 passos:

1 – Utilize atores performáticos – Daqueles que você tem a impressão que sofre de esquizofrenia aguda. Quanto mais movimentos, ruídos estranhos e olhares perdidos no infinito, melhor.

2 – Estabeleça linhas de raciocínio disconexas no diálogo – Não interessa o que o público vai achar, mesmo porque as pessoas que assistem a esse tipo de espetáculo certamente acharão brilhante o roteiro desde que seja "mutcho loco".

3 – Reproduza sons de animais e/ou plantas – Isso demonstra que você tem profundo contato harmônico com os elementos essenciais da natureza.

4 – Indague sobre a existência humana – Isso é batata. Coisas como "ser ou não ser" e "Quem sou eu? Eu sou essa mão ou essa mão sou eu?" funcionam com direito a aplausos efusivos de pé.

5 – Convite o público a participar do espetáculo – Pular do camarote, arrancar as roupas, gritar para expulsar energias cósmicas negativas são atividades que causarão orgasmos múltiplos coletivos.

6 – Faça os espectadores refletirem – Mas faça indagações estapafúrdias como: "Você consegue ouvir o som de uma lâmpada?". O público, que certamente estará muito doido, vai achar a pergunta pertinente e verá nela a resposta para os mistérios do universo paralelo.

7 – Contrate cenógrafo igualmente alternativo e ecologicamente correto – Que faça qualquer objeto reciclável tornar-se parte principal do cenário. Cadeira feita de papelão, iluminação de garrafa pet e outros artefatos de acabamento tosco ganham a credibilidade do público bicho-grilo.

8 – Utilize figurino Woodstock Fashion Week – Roupas de cânhamo, saias de lírio, sapatos de LSD caem bem para o espetáculo.

9 – Incorpore um objeto – No meio do espetáculo afirme que você é um objeto inanimado como, por exemplo, um ralador de queijo. E haja como tal. É delírio na certa.

10 – Converse com você mesmo – Sendo que seu outro "eu" é antagônico às suas idéias, causando discussões calorosas. Um perfeito gran-finale. Bravo!

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