Travanão


Certa vez eu vivi algo que se assemelhou muito a um roteiro de Quentin Tarantino. Algo como Drink no Inferno, onde o filme, até certo ponto monótono, dava uma reviravolta inacreditável.
Era mais um dia normal de trabalho. Época de poucos jobs, calmaria imperando na agência e até os grilos típicos da noite silenciosa (cri cri, cri cri) descansavam. Resolvi me aventurar em sites supérfluos para aumentar minha cultura inútil. Entre um click e outro, uma pausa para um cafezinho, um pit stop no banheiro e um rolé pela agência para jogar conversa fora ou captar algum job que pudesse ir adiantando. Nada foi produtivo. E voltei, de mãos abanando, ao giro pelos sites fúteis. Para aumentar a adrenalina, todas as pessoas do departamento estavam em silêncio, com cara de poucos amigos e nenhuma conversa. Seria um longo dia.
Em certo ponto estava clicando em qualquer link, só para me manter entretido e evitar cair no sono. Foi quando me deparei com um site de humor, que não me recordo agora o nome, que postava uma imagem deveras exótica: um convite para uma festa de não sei onde, não sei quando e muito menos de quem era, mas com um item que não poderia passar despercebido: entre as atrações do evento, um show com o travanão. Fiquei alguns minutos refletindo sobre o que poderia ser um travanão. Juro que naquele momento nada me ocorria, apesar que, depois de pesquisar, percebi que era óbvio. Mas antes de sanar a dúvida, perguntei para meus companheiros de trabalho, em uma tentativa de agitar aquela tarde sonolenta de inverno. E logo um deles me falou: pesquisa na internet, no google. Digita travanão e vê o que aparece.
Também atraído pela curiosidade típica de nós, publicitários, ele veio acompanhar a pesquisa. Digitei a palavra no google e dei o fatídico "enter". Foi como se abrisse o portal do reino dos infiéis castigados de Lúcifer. Como se uma tempestade de antraz misturado com nitroglicerina caísse sobre a agência. Uma imagem perturbadora aparecia. E como se não bastasse, cliquei sobre ela para ver em seu tamanho natural. Foi quando vi claramente a aberração: um anão com peruca loira, maquiagem, completamente nu com um "instrumento" que ultrapassava sua própria altura. Não era 3D, mas o impacto ao ver aquilo é como se fosse. Para quem ainda não entendeu, o termo travanão é a mistura de TRAVeco e ANÃO. E para complementar o fato, meu colega de trabalho emendou um "Nossa senhora, PQP!!", com uma expressão que misturava nojo, susto e uma dilatação máxima de pupila ocular. Detalhe que tudo isso durou milésimos de segundos pois, como eu disse, o portal de abnegados do inferno foi aberto.
Como em um passe de mágica, entraram justamente nesse momento o dono da agência, o atendimento da conta e o cliente. E estavam precisamente querendo falar comigo. Foi quando 3 fenômenos biológicos-naturais aconteceram comigo. Uma lagriminha saía de meu olho direito, uma gota de suor contornava minha face e meu esfíncter anal se contraía. Com um movimento ninja, abri a tela do word para esconder o travanão. O meu "colega" de trabalho aproveitou a tensão e os holofotes apontados para mim para escapar da sala. Eu podia ouvir suas gargalhadas ao vento.
Minha torcida para que o chefe convocasse a reunião para outra sala foi em vão. O debate sobre o trabalho aconteceria bem em frente a tela do meu computador. Naquele momento era tomado por uma vontade incontrolável de rir, chorar, me matar e conferir melhor a imagem (não se trata de uma vontade homosexual ou uma tara esquisita, eu precisava ver de novo por uma simples curiosidade).
Tentei deixar a condução da reunião com o meu chefe ou o cliente, mas para minha infelicidade eu era determinante no contexto. Eu suplicava por um imprevisto que terminasse o meu sofrimento. Eu olhava o cliente e enxergava um travanãozinho fazendo pirocóptero atrás dele.
Foi quando o pior aconteceu. O meu chefe disse a frase mágica "Mauro, acessa o site do cliente e vamos ver tal coisa". Não, isso não poderia de forma alguma acontecer. Já pensava em uma maneira de desligar o computador. Já pensava em uma desculpa esfarrapada para não abrir, em hipótese alguma, o navegador que estamparia a imagem maximizada daquele serzinho com sua surucucu saltante na cara dos 3 personagens mais importantes da empresa. Já pensava em minha carta de demissão. Se fosse uma novela, certamente seria aquele momento de imagem congelada, trilha sonora de suspense e fim do capítulo.
Estava vivendo um pesadelo. Não conseguia me concentrar na reunião. Meus neurônios ainda assimilavam a imagem dantesca do travanão. Tentei ganhar tempo e evitar a tragédia, mas esgotei minhas armas. Já desiludido e derrotado, encaminhei meu dedo trêmulo até o mouse quando, do nada, do absolutamente nada, do inexplicável nada, o dono da agência, o cliente e o atendimento saíram da sala, sem justificativas, sem um até logo, sem um Je Suis Non Sense. Como uma típica película Tarantina. Talvez um Q de Monthy Python.
O caminho estava livre. Acionei o mouse. Olhei o travanão com desprezo, mas rendeu umas boas gargalhadas. Por favor, querem um conselho? Não digitem no Google.

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