50 tons de cinza


Claro que Entre o Bem e o Mauro não poderia ficar de fora do filme mais aguardado do ano. Mas engana-se quem pensa que vou tecer comentários sobre o enredo do filme. O que aconteceu na frente da tela foi mais peculiar.
Era para ser uma tarde despretensiosa de carnaval para quem não gosta muito da folia. Fomos eu e minha esposa ao shopping, comprar presentes para os aniversariantes da semana e passear, quando passamos pela área de alimentação e cinema e percebemos que o filme "Cinquenta Tons de Cinza", o best-seller das sadomasoquistas adeptas do "um roundhouse kickzinho não dói" ou "me esquarteja que eu gamo", estava em cartaz. Imediatamente e com um sorriso pidão no rosto, minha esposa propõe assistir. Com um misto de curiosidade e nada melhor pra fazer, topei. A sessão começaria às 20h30 e tínhamos meia hora para comprar.
Sem maiores percalços para adquirir o ingresso, fomos direto para a fila, que já era grande. Perto das 20h22, a fila sequer andou e só fazia aumentar. Impaciente, um senhor foi questionar o motivo da demora. E a resposta me assustou: estavam higienizando a sala de exibição. Higienizando? Pesada essa palavra, não? Normal a sala ser limpa entre uma sessão e outra para retirar pipocas caídas, copos largados, mas higienização eu associo a pessoas que lutam contra o ebola na África ou a radiação em Chernobyl. E em se tratando de um filme como 50 tons, essa higienização me preocupa ainda mais. Alerta amarelo ligado.
O tempo foi passando até que a barreira das 20h30 foi violada. A higienização prosseguia e o alerta laranja foi ligado. Me sentia próxima de entrar em uma sala de pornochanchada do centro da cidade com meia entrada para trabalhadores braçais da construção civil. Minhas preguinhas, originais de fábrica, estavam sofrendo espasmos voluntários. E as piadinhas como "vou assistir ao filme de capacete", "a mulherada vai engravidar só de sentar" e "é a sala mais fértil do Brasil" começaram a pipocar.
Por volta das 20h50, enfim, a sala foi liberada. Mas eu precisava passar no banheiro antes. Foi quando o alerta vermelho ligou. Uma fita amarela e preta indicava que os sanitários estavam interditados. Minha vontade era fugir. Já conhecia um pouco o enredo do filme, mas não sabia o que ele causava nas pessoas. Imagina então o 3D. Comecei a analisar as pessoas que entravam na sala e procurei escolher um lugar minimamente seguro para assistir à película, mas o recinto já estava cheio e só me sobrou um lugar ao lado de um indivíduo que me recebeu com um sorriso intimidador. Nunca grudei (por favor, não entenda ao pé da expressão) tanto em minha esposa como nesse filme. Parecia uma presa encurralada, prestes a ser devorada por uma alcateia de lobos famintos (é, não estou sendo feliz nos exemplos).
Mas eu tinha que focar no filme e foi o que fiz. E o que vi foi aterrorizante. Quem leu o livro, sabe. Quem não leu, vou apresentar uma breve sinopse: Neste aclamado romance, a mulher se apaixona por um rico empresário que tem uma peculiaridade: utilizar "brinquedinhos" para apimentar a relação. Mas não brinquedinhos comuns que se encontra em Sex-Shops. Eram verdadeiros artefatos de tortura da Idade Média. E a mulher precisava assinar um contrato para provar e aprovar estar ciente de que estaria sujeita a tais atrocidades. Virei lentamente meu rosto, com o olho mais esbugalhado do que o Cerveró após cheirar 1 kg do cocaína, para minha esposa e percebi que ela estava entretida, como se fosse um filme de princesa da Disney. Comecei a achar que aquele filme seria um divisor de águas em nosso casamento. Minhas preguinhas se recolheram, trêmulas.
Como se já não bastasse tamanha tensão, lá pelo meio do filme, ouvi gemidos, quase uma gritaria feminina coletiva. "Esse filme não é de Deus, está mancomunado com o tinhoso", pensei. Não podia ser possível. Tudo que imaginei sobre as mulheres estava caindo por terra. Cadê o espírito romântico, as flores, o vinho, as noites de amor? Agora uma muqueta no queixo é prova de amor? Uma rasteira e choques elétricos no mamilo são atestado de paixão? Pregar as nádegas em uma cruz incandescente é pedido de casamento? Tá tudo errado, não pode ser!! Mas para meu alívio, pero no mucho, os gritinhos não estavam associados ao Christian Grey e, sim, à presença de um pássaro errante dentro da sala. Pois é, amigos, mais essa.
Quem via a sombra do animal alado projetado no telão apostaria que tratava-se do trailer do novo filme do Batman. O pássaro dava rasantes desesperados na sala, causando furor generalizado. Talvez ele estivesse fazendo um "bico" no filme (ok, ridícula essa). Nessa hora já estava completamente desconcentrado. De um lado, o pássaro enfurecido, prestes a colidir comigo. De outro, Mr Grey fazia MMA sexual com a pobre moçoila, treinava seu lado Estado Islâmico do Amor (olha, isso dá um hit pro próximo carnaval. #ficaadica #EstadoIslamicodoAmor). Para mim já bastava.
Fui embora assustado. Com tudo. Próximo filme, só Sessão da Tarde Kids.

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