Apertem os cintos, a aliança sumiu


Quem me conhece, certamente já ouviu falar da fatídica noite em que eu perdi a aliança de casamento. Daí vocês me falam: E daí? Quem nunca perdeu a aliança de casamento? E eu respondo: Aposto meus culhões que você não perdeu na NOITE DO CASAMENTO. Sim, estimado leitor, pode ficar com esses olhos esbugalhados e a boca aberta. Eu perdi minha aliança na festa do matrimônio.
Foi um conjunto de fatos agregados que culminaram nessa verdadeira tragédia anunciada; então não vamos perder mais tempo e começar a saga.

12 de Abril de 2008.

Estava tudo pronto para a grande festa. Os convidados animados, a decoração impecável, a banda dando os primeiros acordes (ah, me lembrem de comentar algo sobre isso mais para frente), os noivos posando para fotos, o buffet delicioso e o garçom, ah, o garçom; um profissional que merece um capítulo à parte. Por pouco não foi com ele que passei minha lua de mel. O buffet havia disponibilizado um personal garçom para o noivo. Uma cortesia que me emocionou. Onde eu ia, o garçom estava lá, com sua garrafa de cerveja na mão e não deixando meu copo vazio um segundo sequer. Ele não falava nada, só me servia. Um escravo alcoólico. O homem da minha vida...(desculpem, escorreu uma lagriminha aqui). Só não entrou no banheiro por motivos óbvios, mas estava lá na porta, pronto para oferecer o combustível da alegria humana.
Esta tudo muito bom, estava tudo muito bem, quando meus amigos delinquentes - aqueles que todo mundo tem - perceberam que eu tinha meu próprio servo etílico e quiseram aproveitar a situação. Abraçaram o garçom, pularam, gritaram e como resultado esperado, copos ao chão e bebida pra todo lado. Mas tudo bem, faz parte da festa, dei minha bronquinha e continuei a diversão. Mas algo estava estranho depois daquilo. Na hora não dei bola, mas alguns minutos depois senti um vazio. Como se algo que fazia parte de mim simplesmente desaparecesse. E eis que noto a ausência da aliança. Frio na espinha. Mini AVC's. Pocket enfartos. Nano convulsões. Pout pourri de tremeliques. A bebedeira me impossibilitou de associar a zoeira dos amigos anteriormente citada com o sumiço da joia. O fato era que eu havia perdido a aliança e precisava encontrar a qualquer custo.
Fui ao banheiro lavar o rosto e pensar. O garçom percebeu a aflição e encheu meu copo. Grande homem. Deveria ser psicólogo. Entre um gole e outro pensei em algo. Chamar meus amigos mais chegados e fazer um mutirão para encontrar a aliança. Algo como achar uma agulha no palheiro. Mas sem levantar suspeitas. Nada fácil, já que os melhores amigos estavam bêbados como suínos. A sorte estava lançada. Em pouco tempo era possível ver várias pessoas com cabeças baixas no salão - algumas engatinhando - a procura do anel matrimonial. E o pior é que isso despertava a dúvida de outros amigos e o número de pessoas procurando se multiplicava em progressão geométrica. Logo minha esposa notaria e eu seria queimado no palco com táticas de tortura da idade média.
A essa altura você ou está caindo na gargalhada ou tenso com o desfecho da história. E a coisa piorou. Lembra que disse lá em cima, na linha 2 do primeiro parágrafo, que comentaria algo sobre a banda? Pois bem, a banda contratada tem meu pai como baterista e eu não poderia perder a chance de dar minha palhinha. No meio do show eu assumiria a bateria para tocar 2 músicas, uma do Pink Floyd (Another Breaking the Wall) e do J. Quest (O Amor). Mas havia 3 problemas nisso. O problema 1: eu não ensaiei e estava há, no mínimo, 8 anos sem tocar bateria. Problema 2: estava muito embriagado. Problema 3: Eu perdi a aliança e a tensão me corroía. Eu precisava avisar correndo para meu pai abortar a missão. Só que acho que ele me viu indo em direção ao palco e anunciou: "Com vocês, uma pequena surpresa. Vem, Mauro". Minha vontade era voar pela janela em direção à Síria, que naquele momento era muito mais tranquila do que estava por vir na festa.
Peguei nas baquetas (ui!) e dei os 4 toques anunciando a canção. O Pink Floyd até que enganei bem, mas o J. Quest eu percebia no semblante dos músicos que eu parecia uma criança de 2 anos tocando panelas de tão descoordenado. O guitarrista contava os segundos para terminar aquele martírio. O baixista desligou o plugue e fingiu estar tocando. O tecladista fazia estripulias sonoras para disfarçar as batidas erradas e o vocalista terminou a música 2 minutos antes do esperado. Um teatro dos horrores. E no final, palmas naturais, semelhantes aos programas de auditório, quando uma senhora levanta a placa "APLAUSOS".
Saí do palco e meus amigos me carregaram no colo, como se fosse um rock star. Mas havia um problema e a comemoração teria que esperar. Perguntei a cada um e ninguém encontrou a aliança. Era o fim da festa para mim. O garçom percebeu meu desolamento e encheu meu copo. Pensei em fugir com ele. Até que as trombetas celestiais tocaram em minha mente. A luz divina iluminou meu olhar. Era um amigo se aproximando, com algo entre seus dedos indicador e polegar. Mal podia acreditar. Meus olhos se encheram de lágrimas. Quando tive a certeza que era a minha aliança que estava com ele, me curvei diante de sua presença. De joelhos e em prantos, recebi a aliança de suas mãos.
Aí veio o alívio, a curtição e a alegria. A festa correu super bem. Minha esposa só ficou sabendo do ocorrido e hoje rimos com o fato.
Mas o final não foi 100% feliz. O vídeo do casamento captou a cena exata do meu amigo esticando a mão com a aliança e eu me ajoelhando, feliz da vida. Ficou bem estranho isso.

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