Bugue do milênio


Essa aconteceu comigo há cerca de 20 anos e jamais será deletado da minha memória, de tão marcante que foi. Era um dia besta de fim de semana, ensolarado, porém igualmente preguiçoso. Estava com o corpo esparramado no sofá, com babas espumantes saindo do canto da boca, ramelas praticamente lacrando os olhos e o controle remoto sendo acionado sem destino. Provavelmente estaria me tornando um zumbi-preguiça (espécie morto-vivo do bicho-preguiça) e nada me faria ter forças para abandonar aquele estado semivegetativo.
Lá pelas tantas da tarde, quando o cansaço já estava me cansando, recebi um telefonema. Não havia ninguém em casa, ou seja, eu mesmo precisaria me deslocar à longínqua base do telefone. Foram alguns minutos entre levantar o corpo, andar até o aparelho e atendê-lo propriamente. Homer Simpson morreria de inveja de tanta energia.
Antes de completar a palavra "Alô", o dito cujo já foi atropelando meu tímpano com palavras afoitas e rápidas. Não consegui identificar o dialeto nem quem estava do outro lado da linha. Precisei questionar. Era um amigo fazendo um convite que não titubeei em recusar: um passeio de buggy pelas ruas da cidade (ele havia comprado um destes carrinhos de passear em dunas desérticas e estava deveras empolgado para mostrar ao mundo).
Mas minha recusa não foi páreo para a chuva de argumentos emotivos e ele me venceu pelo cansaço. Aceitei o passeio, mas com a impressão de que algo no universo não estava conectado o suficiente para que desse certo.
Em menos de 15 minutos ele já buzinava freneticamente na porta de casa. Parecia um adolescente que iria transar pela primeira vez (oh, wait, acho que não foi um bom exemplo para citar), enfim, ele estava empolgado. Subi no buggy - bem velhinho, coitado - e antes mesmo de sentar, ele acelerou com tudo. A emoção só estava começando. O barulho do motor impossibilitava uma conversa, então todo o trajeto foi feito com gritos.
Depois de meia hora, ele fez uma proposta que sinceramente não ouvi por causa do barulho, mas falei um sim sem pensar em consequências. Devia ter perguntado. Ele simplesmente alterou a rota e foi em direção à estrada. No começo até que foi animado, sentir o vento da liverdade, a velocidade dando ares de corrida, mas lembram que eu senti que o universo não estava conectado? Pois é, não devemos ignorar os sinais dos astros. O tempo foi se fechando com uma rapidez nunca vista. O céu que outrora era azul bebê se transformou em um cenário de calamidade estilo Resident Evil.
Desesperado, falei para o meu amigo: cara, levanta a capota que vai cair o mundo. "Que capota? Esse buggy não tem capota", respondeu ele, com um sorriso mais sem graça que Zorra Total. Após isso, despejei meu vasto vocabulário de impropérios e palavras de baixo calão. Não podia acreditar que aquilo estava acontecendo. Não demorou muito e o buggy tinha mais água que o Cantareira precisava em 10 anos. E com a força do vento, cada gota d'água se chocava com minha face com a força de um gorila que tomou 2 potes de Whey. E o pior: estávamos em direção contrária ao meu lar doce lar, além de bons metros do próximo retorno.
Já fulo da vida e completamente encharcado, chegamos ao retorno. Mas o pior ainda estava por vir. Não andamos nem 100 metros e o buggy simplesmente parou. E a chuva aumentou. Eu até soltei uma lagriminha de ódio, mas ela se misturou às gotas da tempestade e meu amigo não percebeu. "E agora, o que faremos?", indaguei ao desgraçado. Aqui vale lembrar que estávamos em meados de 1995. Não havia celular. E não havia uma alma viva rodando pelas ruas.
Ele se lembrou que tinha uma espécie de rádio comunicador, que usava à trabalho, e logo pediu ajuda ao seu patrão. Em 20 minutos ele estaria lá, pelo menos foi o prometido. E já que estava totalmente ensopado, com todos os documentos molhados e sendo um potencial criadouro de dengue, de tanta água parada em meu tênis, pensei que 20 minutos não fariam a mínima diferença.
Claro, óbvio, of course, no doubt, indubitavelmente que o chefe do meu amigo demorou mais de 1hora e meia para chegar, tempo suficiente para voltar para casa a pé. Quando vejo, um caminhão que só de encostar eu poderia pegar tétano. Um homem - se bem que mais se parecia com um urso - desce do veículo, totalmente mal humorado, visivelmente bêbado, com uma voz que se assemelhava a um trovão e perto de formalizar a demissão do meu amigo ali mesmo por conta deste imprevisto. E assim ocorreu o seguinte diálogo:

Chefe Urso - Sobe aí, eu te levo!
Meu amigo - Você leva meu amigo ali no Guarani, onde ele mora?
Chefe Urso - Não. E sobe logo senão nem você eu levo.

Sim, amigos. Fui deixado lá. Eu e o buggy. E a chuva era torrencial o tempo todo. O caminhão se afastava, meu amigo olhava timidamente pelo retrovisor com um sentimento de culpa do tamanho do chefe dele. Eu fiquei exatos 10 minutos estático, sem saber o que fazer. Estava a muitos quilômetros de casa. Não tinha outro jeito: andei, andei e andei. Logo avistei um orelhão. Liguei em casa e ninguém atendia. Andei e andei mais. Foram 2 horas e meia de um silêncio gritante. E a chuva só foi parar no exato momento que cheguei em casa. Tomei banho e voltei ao estado vegetativo no sofá. Um dia pra esquecer. O dia do bugue do milênio.

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