Não é qualquer compra


O universo masculino é cheio de peculiaridades que só os seus integrantes conhecem. E entre elas, algo que é praticamente unanimidade: não há coisa mais chata do que acompanhar a sua mulher nas compras. Se ela tiver inspirada e cheia de ideias, senta que lá vem história; você vai passar, no mínimo, 1 hora no interior do estabelecimento, seja carregando sacolas, emitindo opiniões sobre as mais de 50 peças que ela experimentará ou simplesmente acompanhando, como um tonto, seu percurso dentro da loja. Isso sem contar quando ela passa todo esse tempo e não leva uma peça sequer, partindo para a próxima loja e começando todo o itinerário novamente.
E este fim de semana prometia algo do estilo. No sábado teríamos um churrasco de aniversário de uma amiga da minha esposa e ela precisava comprar um presente. Detalhe que eu já estava com uma ressaca danada do churrasco do dia anterior e tudo o que eu não queria naquele momento era escolher presente. Talvez caminhar em um tapete de pregos incandescentes ou até ver o treino pré-jogo de bocha dos aposentados da Vila União II correndo risco de rebaixamento para a série 3B do campeonato amador fosse mais interessante. Mas não consegui escapar.
Um fato que melhorou a saga foi saber que ela já estava determinada em ir a uma loja específica. E o melhor: fora do shopping, ou seja, não havia um plano B, ela compraria o presente naquela loja e pronto. Assim esperava.
Chegando à loja, algo que me desconfortou bastante: era um estabelecimento 100% voltado às mulheres. Nenhuma peça masculina para ver e passar o tempo. Era praticamente uma casa de boneca com muitos fru-frus, acessórios cheios de gueri-gueri, decoração abarrotadas de chic-chis e musiquinha nhém-nhém-nhém. Estava prevendo um pesadelo naquela manhã de sábado. Torcia para que minha esposa fosse objetiva na sua escolha, mas quando vi o approach da vendedora, percebi que horas piores viriam. Um atendimento super atencioso, envolvente. E minha esposa foi engolida pela predadora do consumismo feminino. E pelo aspecto da loja, tudo de fino trato, esperava por um rombo na planilha financeira do lar.
Já admitindo a derrota e pensando em que me entreter, tive uma visão celestial: um sofá. Sim, um local para descansar meu obeso corpo, cansado pelos resquícios alcoólicos da noite passada. Isso, aliado ao ar condicionado que amenizava a temperatura infernal externa, era a recepção dos deuses. Mas não era um sofá qualquer. Ele tinha almofadas feitas de veludos confeccionados pelas freiras virgens e puras de alma do Tibet. Encostos feitos de plumas de gansos de olhos azuis da Noruega, gansos estes, tratados com ração feita de ovas de salmões Finlandeses. Era algo tão confortável que praticamente me abduziu ao sono profundo. Mas eu não poderia pagar esse mico de dormir na loja. Mas sentar lá já me fazia esquecer que minha esposa estava fazendo compras em uma loja feminina.
Quase tirando o tênis e esticando o esqueleto, a vendedora se aproximou e disse: aceita uma água, café, espumante, cerveja? Eu neguei prontamente, em uma clara prova que eu estava ainda sob efeito da ressaca e com o cérebro confuso. Mas ela tratou de ressaltar: "Não quer nem uma CERVEJA?". Meu Deus, eu não acreditava no que acabei de ouvir. Ela me ofereceu uma cerveja? Eu aqui, no sofá de espuma feita de esponjas lisas do mediterrâneo, sob uma temperatura de brisa marinha matinal e ela me oferece cerveja? Claro que aceito.
Já esperando um copinho de Itaipava quente, a moçoila chega com uma bandeja, uma Stella Artois estupidamente gelada e um copo personalizado que mantinha a refrigeração do líquido. Ah, e uma porção de variados (amendoim, batata e castanha). Eu mal podia acreditar. Só faltava ligar a TV no futebol e um cafuné atrás da orelha. Até esqueci a ressaca.
Mas uma questão me veio à cabeça: ser tratado assim deve ter um preço. Minha esposa deve ter colocado a nossa casa em consignação para pagar as compras. Mas dei uma olhada de canto e não vi nenhuma peça pendurada em seu braço. Voltei ao relax-morning.
Alguns minutos depois, dei o último gole na cerveja, me despedindo do tratamento vip, quando a vendedora, em um golpe ninja, sacou outra Stellinha, ainda mais gelada e lançou em minhas mãos. Sim, estimados leitores, outra cerveja. Nessa hora minha esposa chegou com a habitual dúvida: "Qual blusa você gostou? Essa ou essa?". Categoricamente respondi: "Nenhuma. Você chegou a olhar as araras de roupas lá do fundo? Olha direito. Olha com calma, sem pressa, não podemos errar no presente". E, rindo, ela foi.
No final da segunda cerveja, vejo que ela se decidiu. E, por incrível que pareça, por uma blusa que não tinha um valor assim, exorbitante. Que dia perfeito! Na fila do caixa, ela seria a próxima a ser atendida. E a vendedora não teve dúvidas: "Sr, não quer mais uma cerveja enquanto não chega a vez da sua esposa? Aqui pode tomar à vontade". Não é possível, eu morri e não sabia? Peguei a cerveja e voltei pro sofá. Já nem queria ir mais pro churrasco. Mas a esposa tratou de acabar com a festa. Tive que ir. Com uma lágrima de saudades percorrendo o contorno facial. E pensando na próxima pessoa que faz aniversário.


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