Adrenalina


Talvez essa seja uma das grandes histórias da minha vida. Não, não envolve conquistas, desafios, superações, sangue, suor e lágrimas. Quer dizer...acho que tem, sim, um pouco de tudo isso.
Foi uma noite em meados de 2002, não lembro ao certo. Chegava de uma balada, por volta das 2h da madrugada, completamente trastornado no quesito álcool, e fui urinar antes de dormir. Após algumas cambaleadas e remelexos, consegui mirar o vaso. Feito o serviço, uma sacudida para tirar as gotas remanescentes e levantei o zíper da calça. Na hora eu não havia percebido, mas essa levantada de zíper não foi uma qualquer. Bastaram alguns passos para perceber que algo não estava certo. Uma fisgada que começava na zona erógena e terminava no calcanhar. Eu desconfiava o motivo, mas não queria acreditar. Cada passo, uma lágrima. Sim, amigos, o zíper havia engatado em meu pintinho amarelinho. Mas eu não poderia fraquejar, precisava ver o tamanho do prejuízo. Em uma breve olhadela, vi que dos males ocorreu o menor. O zíper só engatou na pele, não pegou as partes vitais.
Comecei a fazer o movimento para desengate, sem sucesso. Um pouco mais forte e nada. Alternando trancos e puxões, no way. O pânico já tomava conta de mim. Parecia que o esforço só fazia fortalecer o engate. Precisava respirar e refletir. Agora cada passo, além de fisgar a perna, me fazia piscar. O zíper estava preso no músculo-central, aquele que comanda todos os movimentos do corpo.
Em uma atitude de desespero total e absoluto, peguei um óleo de cozinha com a seguinte linha de raciocínio: o zíper vai deslizar, me livrarei disso e dormirei feliz e contente. Uma gota, nada. Um fio de óleo, nenhum movimento. Despejo desenfreado, meu sabiá ficou brilhando, mas nada da arapuca sair. Caí no choro. No auge dos meus 30 anos, tive que tomar uma atitude extrema. Acordar minha mãe e pedir ajuda.
Depois de contado o acontecido, ela sugeriu que fossemos ao pronto-socorro. E propôs que eu cortasse o tecido nos arredores do acidente e retirasse a calça para colocar uma bermuda e, assim, esconder o cenário de terror. Para ajudar a visualização de vocês, queridos leitores, parecia que meu rouxinol estava com um piercing. E fomos ao hospital.
Sentado desconfortavelmente na repcepção do pronto-socorro, por volta das 3h, o enfermeiro me chamou. Era minha vez de ser atendido. E como desgraça pouca é bobagem, a plantonista era mulher. Perguntou o motivo de estar lá. E quando contei e mostrei, ela não conteve o riso. Recomposta, me conduziu à maca de atendimento. E se iniciou o pesadelo.
Ela olhou, analisou, puxou e com um sinal negativo em sua expressão, deu o diagnóstico: VAMOS TER QUE FAZER UMA CIRURGIA. Se fosse uma novela, haveria um efeito sonoro a la Hitchcock, a tela perderia as cores e o capítulo ali terminaria. Certo de que estava havendo um engano, perguntei se ela tinha certeza de tal afirmação. E confirmou, com segurança.
Não era possível que aquilo estava acontecendo. Já pensei em fazer meu testamento, porque chegar naquele ponto, para mim, era a morte da honra. Um motivo para o haraquiri. O fim da oportunidade de perpetuar a minha espécie. De gerar herdeiros. De criar novos reis do trocadilho. De imortalizar a minha obra.
Fui conduzido a uma pré-sala de cirurgia e aguardei. A médica disse que o cirurgião estava em São Paulo e só chegaria de manhã. Foi uma espera tenebrosa, cruel. Por volta das 5h, um enfermeiro entrou e analisou o ocorrido, já com um sorriso irônico. Certamente a notícia havia se espalhado nos corredores do hospital. E confirmei isso depois que ele me perguntou: "Posso só chamar um pessoal para ver?". Quem assistiu "Quem vai ficar com Mary?", do Ben Stiller, reconheceu isso, não?. Aceitei, pois de nada adiantaria perder o humor naquela hora. E mais, não poderia parecer grosso com o enfermeiro, afinal, era meu pardal que estava em jogo. Me senti um animal dentro de uma jaula no zoológico. Cerca de 6 pessoas olhavam o piercing peniano com consternação e a famosa expressão de "como você conseguiu essa proeza?". Só faltava me levarem em um auditório com 2 mil estudantes de medicina e começarem uma palestra que também seria exibida, via webcam, para mais de 130 países. O constrangimento era total. Me senti as fezes do mangalarga do meliante do velho oeste.
Enfim, por volta das 6h30, o médico entrou na sala. Ouvi uma boa e uma má notícia. A boa é que não precisaria fazer a cirurgia. A ruim é surreal. Ele chamou o eletricista do hospital e pediu para que ele trouxesse a caixa de ferramentas. Frio congelante na espinha. Não deu 5 minutos e veio um ogro de 120 quilos em forma humana. Mini enfartos e pocket AVC's. O médico instruiu que ele pegasse um alicate de ponta fina, inserisse cada uma das pontas em um buraco do zíper e fizesse o movimento de abertura para desconectar o mesmo da pele de meu tico-tico. Feito. Sem dor. Muito alívio. Lágrimas de felicidade.
Após isso, ele passou um líquido cicatrizante e tentou colocar uma espécie de curativo enrolado na minha graúna. Só que estava tão pequeno, tão recolhido, parecendo um mendorato-anão-enrugado, que o curativo ficou parecendo um gorro de Papai Noel. Mas fui pra casa, mais leve. E a partir daquele dia, o levantar do zíper é feito com muito cuidado.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O negão da piroca

Sábio guru

Pombinha Manca