Balada selvagem


Muito, mas muito antes mesmo da febre das baladas sertanejas, uma casa noturna se tornou a sensação da minha época de solteiro, o Country Ville Piracicabano, na região de Americana/SP. Íamos em grande turma, toda sexta-feira. E ao invés de descrever o local da maneira tradicional, vou explorar a casa noturna contando o acontecido em um dia específico, quando convencemos um grande amigo na época a encarar a noite no Piracicabano.
Ele era um amigo de gostos mais requintados. Curtia locais com pessoas bonitas, cocktails diferenciados e ambiente agradável acompanhado de boa música. Um autêntico playboy, bon-vivant. Quando citamos essa nova balada, mesmo ressaltando que estava distante cerca de 100 km de sua terra natal, Itu/SP, ele mostrou uma empolgação sem igual. Inclusive disse que as baladas sertanejas estavam começando a cair no gosto da nata da sociedade paulistana. Eu tentei explicar que talvez não fosse bem o que ele imaginava, mas sua felicidade em curtir aquela noite não me deixou. Combinamos o horário e continuei minha rotina.
Na sexta-feira, pontualmente no horário marcado, ele buzina na frente da minha casa, com um som sertanejo em volume um pouco acima do tolerado e acompanhado de u-huuus animados. Quando ele desceu do carro, uma surpresa: toda, absolutamente toda sua vestimenta era tematizada e nova, como se comprasse exclusivamente para a ocasião. Chapéu de couro, cinto com fivela banhada, ou melhor, encharcada a ouro, botas brilhantes e camisa social xadrez mais engomada que ao sair da fábrica. Só faltou o Mangalarga árabe criado em um haras nos alpes suícos com chocolate Lindt ao leite de vacas loiras de olhos azuis. Fiquei com dó de frustrar suas expsctativas, mas o lado sacana falou mais alto.
Logo chegou o resto dos amigos e fomos ao Piracicabano.
Pegamos o caminho da Anhanguera e veio a primeira indagação: "Nossa, tem que pegar estrada?". Eu expliquei que era em uma cidade vizinha e ele completou: "Para vocês se deslocarem a outro município, o lugar deve ser demais! U-huuu". E aumentou o som.
Meia hora depois, pegamos a entrada que dava acesso ao furdúncio, ao que ele perguntou: "Não era em Americana?". E eu repondi: "Um pouco antes". Não demorou, paramos no estacionamento e ele perguntou, um pouco assustado: "Mas isso aqui parece um galpão abandonado de fábrica. Você só pode estar brincando".
A partir daí foi uma sequência de desapontamentos. E para que você não fique boiando, vou explicar: o Piracicabano era (a casa fechou e explicarei mais adiante o porquê) uma casa noturna de beira de estrada, frequentado por pessoas extremamente feias, regado a bebidas de marcas duvidosas, ambiente fétido e música de quinta. E qual a razão de irmos em um lugar assim? Simples, você pagava R$ 6,00 e tinha cerveja à vontade. Sim, amigos, por apenas 6 reais você recebia sua caneca e bebia até o fiofó fazer bico. Bom motivo, não?
Voltando ao amigo, sua expressão era um mix de raiva, desespero e descrença na humanidade. Ele olhava a fila e se sentia no Simba Safari de tantas pessoas exóticas. Um Fashion Week do cramunhão. Uma exposição das experiências mal sucedidas de Deus. Parando para observar mais um pouco, percebemos que algumas mulheres estavam com uma fita de cabelo com os dizeres: Frank Aguiar. Não demorou e descobrimos qual seria o show da noite no local. Mas claro, óbvio, of course que não era o original e, sim, o cover. Sim, queridos leitores: Frank Aguiar Cover, o vira-lata dos teclados, seria a atração principal daquela noite. Tivemos que conversar durante meia hora com nosso amigo para convencê-lo a não ir embora. Após frases como "Vocês não precisam disso", "Vocês precisam se valorizar" e "Olha essa fila, o que estou fazendo aqui", conseguimos persuadí-lo. Mas era visível seu descontentamento. A noite, para ele, acabava ali. E lá dentro não foi muito animador para suas expectativas iniciais. Obesas de mini saia e top de onça piscando para ele, passinhos na pista de dança, gritos para o frank aguiar cover e um tsunami de cachaceiros brigando pela cerveja quente servida colocaram em risco a amizade construída.
Mas teve uma hora que para ele não dava mais. Chegou para mim e disse: "Você tem carona na volta? Vou embora". Sabendo que não teria como evitar e com um sorriso irônico, me despedi dele. Não deu 5 minutos e uma correria se iniciou na entrada da casa. Uma briga generalizada. Fui ver o que era e logo localizei meu amigo, estarrecido, paralizado e gritando: "Seu FDP, olha o local que você me traz. Você me odeia? O que eu te fiz?".
Logo chegamos ao foco da briga. Um bando de homens balançava o carro de outro rapaz que estava em vias de ser linchado. Até hoje não sei o motivo, mas o fato é que não demorou e eles viraram o carro, tiraram o rapaz, surraram ele e, pasmém, colocaram fogo no veículo. Pouco depois chega a polícia e bombeiro para apagar o fogo. Muitos saíram sem pagar e na bagunça me perdi do amigo. Para todo o sempre. Nunca mais tive notícias dele. E o Piracicabano fechou. Motivo: a cerveja vendida era fruto de carga roubada. As sextas ficaram menos divertidas.

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