Crueldade


Quer conhecer uma pessoa? Dê poder a ela. Essa máxima popular se aplicou perfeitamente a semana passada na agência onde trabalho. Meu parceiro de criação (hummm, isso soou meio estranho), até então um profissional pacato e centrado, se revelou um ser humano frio e calculista. E olha que já são mais de 3 anos trabalhando juntos, o suficiente para conhecer seu perfil.
Era mais um dia normal de trabalho e, em certa hora da tarde, uma abelha começou a sobrevoar a criação. O voo panorâmico durou alguns segundos até que voltei minha atenção ao job designado a este que vos escreve. Li, pesquisei na internet, fiz algumas opções e logo tudo estava resolvido e aprovado. Nesse meio tempo fiquei navegando na internet quando ouço um sussurro que misturava uma suave risada de sarcasmo e um grunhido malévolo de alguém sem coração.
Meio assustado e muito curioso, olhei disfarçadamente para saber do que se tratava e logo vi a cena: a abelha que sobrevoava o ambiente caiu involuntariamente no teclado do computador dele. Lá estava ela, de pernas para o ar, acionando desesperadamente suas asas para uma fuga improvável e impotente diante do risco iminente de uma morte trágica e com requintes de crueldade que deixariam grupos radicais terroristas parecendo escoteiros-mirins da terra dos ursinhos carinhosos. Dava para ver em seus olhos o brilho da foice e a expressão demoníaca da Dona Morte. Suas antenas vibravam em código Morse emitindo um SOS para sua colmeia, mas meu colega de trabalho não dava mostras que iria atender suas súplicas.
Aqui vale um adendo: uma pessoa normal teria atitudes como espantar a abelha ou até matar com um pisão, mas neste caso a demora de uma atitude denunciava que práticas de torturas seriam adotadas. Não demorou muito e logo ele pegou uma fita de vedar caixa de papelão. Sem tirar os olhos da cena e ao mesmo tempo tomando cuidado para ele não perceber que eu acompanhava tudo e me passar por abelhudo, me espantei ao ver o pobre Abel (nome carinhoso que dei a ele, diante do apreço que adquiro por insetos oprimidos), marido da Mel e amante da Mary Bondo, grudado à fita, em contagem regressiva para sua ida ao outro plano espiritual.
Mas engana-se quem pensou que ele envolveu Abel na fita e o matou asfixiado. Não! Ele brincava com Abel. Ficava segundos apreciando seu desespero. Sentir o odor do medo da abelha dava prazer a ele. Dava para ver sua expressão de satisfação extrema. Ele salivava a cada urro de dor de Abel. Tinha orgasmos múltiplos a cada avaria em sua carcaça. O detalhismo das técnicas de tortura beirava o insano. Cada patinha sofria de dores extremas. Ele utilizou elementos como o estilete para deixar sua marca. E eu estava paralisado diante deste ritual de esquartejamento físico e mental.
Em certo momento a abelha caiu no chão e eu torci para que o sofrimento acabasse de uma vez. Mas ele pareceu querer voltar à técnica da fita. Não resisti e, em choque, intervi. Ordenei que ele pisasse de uma vez na abelha e decretasse o fim do martírio. Prontamente ele negou e deixou o local, deixando pobre Abel ali, agonizando e sucumbindo à morte.
Esperei ele sair do meu raio de visão e peguei uma folha de papel para colocá-lo à mesa, analisar o grau dos ferimentos e calcular suas chances de vida. Mas ao tentar fazer Abel subir na folha, ele voa em minha direção e colide com meu braço. Com um tapa, levei Abel à nocaute. Peguei a fita e sufoquei-o contra o chão. Pisei com todas as minhas forças e logo Abel virou uma panqueca de inseto insolente. Tá achando que é o que para me atacar?

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