Ingredientes malditos


Eu sou um cara fresco para comer, confesso. Tenho uma lista significatica de produtos alimentícios que não agradam meu nobre paladar. Ir ao restaurante com minha esposa é um sofrimento para ela, coitada. Sempre o mesmo cardápio, sempre a mesma ladainha. E olha que na infância eu comia de tudo, era um exemplo de criança, mas o tempo foi passando e fui construindo o seleto grupo de itens que fariam parte das minhas refeições dali em diante.
Mas o fato é que não é simples assim. Enquanto eu estiver sob o teto de meu lar, eu posso desfrutar da comida que me agrada, mas sempre estaria sob risco de enfrentar situações inóspitas às diferentes mesas que frequento.
A situação é tão séria que posso afirmar categoricamente que 80% dos pratos, se feitos à maneira tradicional, terá ao menos um ingrediente que me desagrada. Entre eles: milho, champignon, frutos do mar, legumes, saladas, frutas (a maioria), etc e muitos etceteras mais. É, amigo, eu disse que a coisa era séria.
Tal particularidade me fez desenvolver uma habilidade ímpar à mesa. Sou um exímio deslocador de ingredientes. Um pedaço de tomate pode estar escondido entre os grãos de arroz que eu o encontro e coloco no canto do prato. Uma ínfima ervilha-anã pode estar embrenhada em um frango desfiado que fatalmente será localizada e posta em seu calvário eterno. Um fio de cenoura pode estar perfeitamente disfarçada de batata palha que meu olhar milimétrico trata de raptá-la sem despertar suspeitas entre os presentes. Provavelmente vocês estão lendo a crônica do maior expert em retirar alimentos do prato sem que isso altere a quantidade do que gosto. Se é pra retirar a ponta da rúcula que está grudada na carne, é ela e somente ela que será separada.
Mas nem sempre é fácil. Por isso algumas vezes, e dependendo de onde estiver, uso minha esposa como cúmplice. É ela quem fica responsável por desovar os corpos, por dar sumiço nos defuntos, por queimar o arquivo. Em algumas vezes eu diria que essa parceria não seria descoberta nem pelos profissionais do CSI, FBI, KGB e outras instituições. Basta uma pequena distração dos presentes e o monte de ingredientes é abduzido até o prato dela e devorado, sem deixar vestígios.
Podem vir os principais chefs de cozinha mundial, eu descubro o ingrediente oculto. Pode chamar aquele mala que cozinha com nitrogênio radioativo e que mistura polpa de carnaúba com pâncreas de ornitorrinco e coloca aroma de picanha pra disfarçar que, como um ninja advanced, dou um bote certeiro e extermino os itens exóticos. A final do próximo Master Chef pode desafiar os participantes a me fazer comer algo que não goste sem que eu saiba. Sinto lhes informar, mas não haverá vencedor. Sabe aquela história de que se uma pessoa perde um dos sentidos, todos os outros ficam mais agucados? Pois bem. Todos os meus são. Sou o Chuck Norris alimentício. Sou o Fast Kill Food.
Mas não para por aí: se eu captar o menor sinal que estou sendo convidado para um jantar arapuca, que além dos ingredientes que eu não goste, a minha esposa também não, contenha seu sorriso irônico. Eu vou ter uma desculpa altamente convincente na ponta da língua. Sem aquele ar de desfeita. Desista. Reconheça a derrota.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O negão da piroca

Sábio guru

Vaguinha difícil