O buraco


Se Stephen King ler essa crônica, certamente usará de referência para sua próxima película. Tudo aconteceu na noite de um domingo aparentemente pacato. Estávamos preparando um jantar leve, quando lá da cozinha minha esposa gritou: "amor, pode vir aqui um minuto?". Pedi para que ela esperasse um pouco, pois estava vendo uma reportagem no Fantástico. Quando a matéria terminou, fui ao encontro dela, para prontamente auxiliá-la. Mas dessa vez não era um favor. Ela apontou para a parede, logo abaixo do mármore da bancada da pia, e questionou: "esse buraco já existia?". Quando acompanhei a direção de seu dedo indicador, avistei o buraco mencionado. Era um buraco de cerca de 10 cm de largura e X de profundidade. Na hora me recordei que talvez tivesse visto, sim, o buraco. Afirmei que ele estava ali desde que nos mudamos para a casa. Fomos jantar e o assunto ali mesmo foi encerrado.
Comi, repeti o prato, terminei e levei os apetrechos alimentícios para se juntar à louça dominical. Ao dar meia volta, o olhar foi desviado para o buraco. Se fosse um filme, seria a hora que o buraco estaria em close, em um ambiente escuro e a tenebrosa trilha de abertura se iniciaria. Meus neurônios se conectaram para procurar resposta: "será mesmo que o buraco já existia?". Aquilo começou a me afligir de uma maneira preocupante. Não havia sequer sinal de poeira e pequenas pedras que denunciassem que o pedaço da parede cedeu. Era talvez a prova que o buraco já estava lá. Mas isso não era necessariamente bom.
Com um frio rasgante na espinha, me aproximei do buraco. Logo percebi que pedaços amassados de papel envoltos por trouxinhas feitas de saquinhos de supermercado tapavam o grande furo. Não tive coragem de prosseguir. Mas em minha mente, algo estava lá dentro. Mas o que?
A partir daí, o buraco se tornava um habitante indesejado em meu lar. E como a cozinha é o cômodo mais visitado da casa, toda vez que eu entrava, o buraco me encarava. Cada vez que eu olhava, o orifício de concreto tomava uma forma demoníaca. Eu sentia aquele riso sarcástico me chamando para dentro dele. Talvez meus maiores medos estavam presos por frágeis saquinhos. Eu já enxergava a forma de Lúcifer enfurecido com seu tridente incandescente na fenda. Estaria lá abrigada a cova de um assassino moribundo e esquizofrênico que não subiu ao plano superior e está atormentado pelos espíritos errantes que vagam pela Terra? Ou seria um portal abissal que engoliria o universo em poucos segundos. Ou ainda a porta de escape de zumbis acéfalos prontos para dizimar a população? Ou quiçá haveria uma cobra, rato ou qualquer animal peçonhento pronto para atacar. Muitas perguntas. Muito pavor.
O fato é que a fissura povoava meus piores pesadelos e o pânico me deixava impotente. Era impossível encará-la sem que a minha imaginação me torturasse com as piores possibilidades.
No dia seguinte o buraco estava lá, quieto, porém imponente e senhor da situação. Pensei em inúmeras soluções, entre chamar um pedreiro, um dedetizador e até o FBI, mas preferi deixá-lo ali, tranquilo. Melhor assim.
.
.
.
.
.
Acabou a crônica, sim. Por que? Tava esperando a revelação do que estava no buraco? Então vai lá você. Tira os saquinhos e olha com seus próprios olhos. Não é uma pessoa corajosa? Não tava rindo de tudo isso e me chamando de frouxo? Vai lá, Sr Coragem. Encara essa, Rei de Esparta.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O negão da piroca

Sábio guru

Vaguinha difícil