Planeta Extremo


7 horas da manhã. Soa o alarme. É hora de começar talvez a aventura mais extrema da minha vida. Preciso acordar e ir para mais um dia de trabalho. Mas sair da cama não vai ser um trabalho tão fácil como imaginei. O colchão já adquiriu a forma de meu corpo e vencer os limites da espuma vai exigir muito de meus músculos. A fadiga matinal impede que eu vença a fofura envolvente do local onde hibernei por 7 horas.

Dr Hanz Chucrutz, neurologista e especialista em traumas musculares da Universidade de Massachussets - "O colchão, quando chega ao nível de envolver o corpo, altera as conexões do neurônio e provoca a maciez muscular, dificultando os movimentos. Levantar torna-se uma tarefa árdua que só atletas de alta performance conseguem, ainda assim a um custo muito alto, podendo acarretar em graves traumas"

Tento me revirar de um lado para outro, em busca de impulso para sair da armadilha. Mas a cama é Queen Size e sua vasta área provoca um desespero em mim. Cada metro quadrado é um convite ao sono, cada mola ensacada executa uma massagem que é um verdadeiro gesto de carinho. Estou preso dentro de minha própria preguiça, sou escravo da minha inércia. Preciso retirar forças não sei de onde para superar meus próprios limites.

Dra Vallery de Montoá, psicoterapêuta na Sri Lanka Cerebral College - "O maior obstáculo proposto ao ser humano é criado em sua própria mente. Situações extremas como essa funcionam como uma bomba de stress e causam, entre outras coisas, disfunções motoras, imobilização temporária e depressão pré-despertar, algo muito grave. Existem estudos nessa direção. Nada muito conclusivo, pois trata-se, talvez, de uma das mais avassaladoras epidemias já relatadas: a síndrome do mais 5 minutinhos."

Tenho a impressão que estou lutando comigo mesmo a uma eternidade. Não consigo avistar o fim deste mar de espumas desenvolvidas pela Nasa. As horas avançam e estou esmorecendo, catatônico. As babas no canto do lábio denunciam que estou em estado de putrefação sonolenta. Preciso raciocinar. E rápido. Logo avistei um travesseiro. Tentei utilizá-lo como degrau para levantar. Foi meu maior erro. As penas de ganso obeso abraçaram minha cabeça e fui totalmente imobilizado.

Prof. Thomaz Turbano, Personal Trainer e medalhista olímpico de esgrima em Athenas - "O que difere as pessoas comuns dos esportistas de alto nível é o poder de superação. E isso não depende apenas de força de vontade. Envolve muito mais que isso: concentração, preparo, sangue nos olhos. Sair da cama, apesar de ser uma missão diária, requer um autocontrole e força dificilmente encontradas na espécie humana."

Tudo estava perdido se não fosse um detalhe: o segundo alarme foi acionado. Era o sinal que precisava. Respirei fundo, peguei o travesseiro e arremessei para longe de mim. A luta estava apenas começando. Com um mata leão, me livrei do terrível lençol amaciado com Fofo High Care. As lágrimas denunciavam que eu seria exigido até o meu limite. O colchão ativou sua carga extra de magnetismo como forma de "apagar" minha consciência. Mas eu estava duro na queda. Com um movimento brusco, consegui vencer o limite da cama. Estava finalmente livre. E pronto para mais um dia de trabalho.

No próximo programa: lavar a louça, como vencer esse inimigo de imundos subterfúgios. Até lá.

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