Pobre Ritinha (crônica retrô)


Ritinha era uma linda menina de família muito pobre. Seu pai, Juvêncio, trabalhava como assistente de gari, em meio período, para ganhar seus míseros 88 reais por mês. Sua mãe, Abelarda, era doente e não podia trabalhar por recomendação do médico do SUS. Eles viviam de aluguel, em um barraco na periferia de Diadema/SP, sob condições desumanas de higiene, alimentação e infra-estrutura. Era mais uma típica miserável família brasileira.

Voltando à Ritinha, a menina tinha uma particularidade que fatalmente tornar-se-ia um problema para Juvêncio. Ela era ambiciosa e materialista, porém, muito amorosa com os pais. Certo dia, já desiludida com a situação financeira da família, Ritinha chegou para o pai e pediu um computador com acesso à internet. O pai prontamente respondeu: "Filha, você sabe que isso não é para a gente. Mal temos dinheiro para comer. Tente ser compreensiva". A filha, visivelmente irritada, correu aos berros para o seu quarto. O pai, tranquilo, acreditou que o pedido era simples modismo momentâneo. "Logo, ela esquece", pensou. Ledo engano.

Ritinha, sabendo muito bem usar o discurso emotivo, aproveitou o jantar e fez o seguinte comentário: "Pai, mãe. Sei que nossa situação não permite, mas acho que vale a pena tentar investir na internet. Não é capricho, com a internet posso estudar e achar um jeito para melhorarmos financeiramente.". Aquilo tocou o coração de Juvêncio. Na hora de dormir, ele chegou para Abelarda e disse:"Amor, eu não suporto o fato de não poder proporcionar o melhor para nossa Ritinha. Acho que foi bom tudo isso. Me deu motivação para procurar algo melhor, crescer na vida. Eu vou conseguir dar a internet à nossa pequena.". Abelarda, sem esconder suas lágrimas, deu o maior apoio.

E Juvêncio saiu em busca de algo melhor. Mas seus 62 anos e a limitação física e de conhecimento dificultavam a recolocação. Os dias passavam e nada. E ver o semblante triste de Ritinha era uma facada em seu coração. Até que Juvêncio não teve outra alternativa. Aceitou uma proposta para trabalhar de bóia-fria na plantação de cana-de-açúcar. Não ganharia muito, mas era a única coisa que encontrou. O trabalho era pesado e, depois de fazer as contas, percebeu que precisaria fazer jornada dupla para chegar ao valor mínimo de um computador com internet.

Abelarda começou a ficar preocupada, já que Juvêncio não tinha mais idade para suportar a carga física do trabalho. Ele saía às 3h de casa e só voltava às 23h. Logo, ele começou a apresentar sintomas de stress e cansaço. Até que um dia desmaiou ao chegar do trabalho. Foram correndo ao médico. A notícia foi terrível. Ele sofrera um infarto e estava com os dias contados. Situação irreversível. Então, Juvêncio mandou chamar Ritinha. Ela, sentindo-se culpada e desmanchando em lágrimas diz: "Pai, desculpa, eu não queria que fosse assim". Ao que ele responde: "Filha, toma (tirando o dinheiro). Agora você pode ter internet e estudar para ser alguém na vida. Cuida bem de sua mãe". E Juvêncio faleceu.

Foi uma tristeza de cortar o coração. Ritinha olhava para o dinheiro e tinha uma mistura de orgulho com raiva. E decidiu atender o pai. Comprou um computador usado, fez o cadastro na empresa de internet e esperou a instalação. Mas, dias depois, a empresa liga dizendo que os cabos de internet não chegavam ao seu bairro. E a coisa piorou. A empresa, mesmo assim, continuou emitindo boletos. Logo o nome da família estava sujo. O dinheiro acabou. Ritinha, revoltada, decidiu tirar satisfações na empresa. Mas, ao sair de casa, não percebeu o estouro de uma manada de zebras hemafroditas enfurecidas. Foi pisoteada até a morte. Triste fim.

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