Só faltou um pouco de malandragem


Namorado de primeira viagem sempre paga mico. Não sei se existe esse ditado, mas se aplica perfeitamente a mim. Nunca fui de namoros sérios até conhecer minha atual esposa. E essa inexperiência quase custou o fim do relacionamento.
Foi exatamente no dia 12/06/2005, o meu primeiro dia dos namorados com ela. Combinamos de nos encontrarmos após o trabalho para jantarmos em algum restaurante romântico. Perto do fim do expediente me ocorreu algo que é óbvio para qualquer casal de namorados, mas naquele momento não me era assim, tão natural: Deveria comprar um presente para ela. Eu precisava, então, correr até o shopping e escolher algo antes de chegar na casa dela no horário marcado. E, neste caso, chegar atrasado me complicaria por 2 motivos: O primeiro por não ser pontual e o segundo por transparecer que lembrei em cima da hora de comprar algo, fazendo cair por terra todo o romantismo da data.
Consegui sair um pouco mais cedo da agência e fui voando ao shopping. Chegando lá, um problema: o que comprar? Não tinha muito expertise no assunto e mesmo que tivesse, seria uma escolha delicada. Uma calça tamanho maior poderia sugerir que ela estaria acima do peso, uma blusa mais curta que eu a considerava vulgar, um bicho de pelúcia que eu a julgava infantil, um doce que ela seria amarga e uma flor que eu seria alguém sem criatividade nenhuma. É, o desafio era tremendo. Era o primeiro dia dos namorados e eu não poderia dar qualquer coisa. E os minutos corriam.
Mas eis que lembrei de uma conversa, onde ela revelou sua admiração pela obra musical de Cássia Eller. Eureka! Bingo! Voilá! Iolerulê-ihi! Claro, um DVD da Cássia Eller.
Já imaginava o sorriso de felicidade dela, as lágrimas de emoção por ter um namorado que acerta em cheio o mimo, os dias e noites vendo o DVD e lembrando do príncipe encantado que ela encontrou. Comprei o produto e fui para a casa dela, confiante de uma noite inesquecível.
Pontualmente às 19h30 toquei a campainha e tratei de esconder o presente para fazer a surpresa. Ela abriu a porta e fui em sua direção. Perto de revelar a surpresa, eu fui surpreendido. Ela havia preparado um presente que mais parecia uma superprodução de Steven Spilberg: Uma cesta composta de bebidas, roupas, doces, chocolates, vinho com taças, ursos de pelúcia, fogos de artifício, efeitos 3D, apresentação da Orquestra Filarmônica de Estocolmo, flores raras dos alpes andinos, helicópetros com chuva de rosas e muito mais. Minha mão que segurava o DVD tremia. Minha vontade era ter bombinhas de fumaça ninja, jogar no chão e sumir. Mas seu semblante pedia um presente à altura. Pensei em palavras, desculpas, até que não me restou alternativa. Entreguei o "presente". Pelo formato da caixa ela poderia imaginar uma joia, mas o símbolo das Lojas Americanas não deixou fresta para fantasias. Sua expressão de desapontamento ao ver o produto foi como uma espada fincada em meu coração. Ela não conseguia e nem tinha como disfarçar. A noite acabou ali. Dias depois me retratei. Tudo passou e hoje rimos da história. Mas o DVD continua no plástico e nunca foi visto. Acho que Cássia Eller perdeu uma fã.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O negão da piroca

Sábio guru

Vaguinha difícil