Voo radical


Mosk J. Fly não era um pernilongo comum. Nascido em um terreno baldio no litoral norte de São Paulo, Mosk gostava de viver aventuras arriscadas. No mesmo dia que nasceu, escapou de ser trucidado por um trator que recolhia os entulhos da área onde veio ao mundo. Infelizmente seus outros 237 irmãos não resistiram aos ferimentos.
Ele não era daqueles que vivia sob as asas da mãe. Procurava ser independente, para desespero total dela. "Filho, você não está vendo que os humanos estão de marcação com a gente com a epidemia da dengue? Toma cuidado", dizia aflita Dona Aedes. Mas Mosk não aceitava ter uma vida fadada a se alimentar de seivas e lixo. Ele queria sangue humano. Mas não qualquer sangue, ele queria de humanos perigosos, que dedicavam minutos para matar sua espécie. Para isso, ele voava por terras inóspitas deste Brasil de meu Deus, sempre procurando o contato fervoroso com humanos sedentos pelo odor da morte destes insetos.
Mas Mosk não era totalmente louco. Para encarar este risco, treinava com os melhores professores de voos para pernilongos. Aprendeu técnicas de desvios bruscos, aguçou o sexto sentido da aproximação humana, teve aulas de sucção dinâmica de sangue, rasantes noturnos, zunidos agudos e pouso em locais de difícil acesso. Estava prestes a se tornar um dos mais bem sucedidos pernilongos do planeta.
Não demorou muito e logo estava fazendo demonstrações em diversos países. Mosk tornou-se uma celebridade, para orgulho de sua mãe. Pegou as pernilongas mais lindas, ganhou muito dinheiro, ficou em águas paradas 5 estrelas e degustou o nobre sangue azul.
Só que esse desvio na história fez com que ele ficasse muito tempo treinando, mas sem nenhum contato humano. Ele era bom na teoria, mas a prática não acontecia, o que se tornava um grande perigo para sua vida.
De volta ao Brasil, Mosk pousou em um cartaz. Tudo parecia normal, mas o cartaz era um anúncio publicitário da nova onda entre os brasileiros: a raquete elétrica. Ela prometia dizimar os pernilongos com seu potente choque. Mosk teve um acesso de riso. Pegou o cartaz e levou até seu produtor: "Este vai ser meu novo desafio", falou com extrema segurança e elevada autoestima. "Você é louco, isso está fora de questão. É morte na certa", alertou Don King Fly, produtor e pai de Mosk. Mas não foi o suficiente: "Então procurarei outro parceiro". Sabendo que a teimosia de Mosk era irreversível, seu pai aceitou, com muita dor no coração, a insanidade proposta por ele.
Foram meses de treinamento intenso. O desafio seria transmitido para o mundo inteiro. A ousadia de Mosk deixou a espécie em polvorosa. E a raquete não parava de matar. Fontes afirmavam que 95% dos pernilongos que entraram em contato com a "arma" não resistiram. Os outros 5% ou estavam mutilados ou com graves sequelas. O pai de Mosk não se cansava de convencê-lo a desistir. Em vão.
Após diversas reuniões, a estratégia estava definida: Mosk passaria em um ponto cego da raquete, um ponto único onde a onda elétrica não provoca o choque. Para isso, o voo deveria ser preciso em velocidade, envergadura e local. Uma falha e Mosk viraria cinzas.
Chegava o grande dia. Um café da manhã com seiva diet, clorofila goumet e sangue detox o deixava preparado para altas emoções. Pontualmente às 17h ele entrava pela janela da vítima. As câmeras das emissoras de TV já estavam posicionadas na parede onde ele pousaria: logo acima do sofá onde Conan, o Ogro Matador, assistia seu futebol. Mais à esquerda, em cima de uma cadeira, a raquete, totalmente carregada, com tsunamis elétricos pulsando para a morte.
Era chegada a hora. Mosk acionou suas asas e voou em direção ao Conan. Um ou dois rasantes foram suficientes para despertar sua fúria. Mosk pousou na parede para preparar o desafio da raquete. Mas Conan o surpreendeu. Pegou seu chinelo e em um só golpe transformou Mosk em panqueca. Conan não gostava da raquete pois se assustava com os estalos elétricos. Triste fim.

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