1 de Abril


Nunca tive uma ligação muito forte com tradições, mas dependendo da ocasião acabo entrando na onda só para me divertir. Foi assim com o desafio do balde de gelo, o "para noooossa alegriaaa", entre outros. E o motivo dessa crônica é justamente a participação em, talvez, uma das mais antigas delas: o primeiro de abril, dia internacional da mentira.
Era um dia normal de trabalho até que um dos colegas indagou: Que tal fazermos uma "pegadinha" de primeiro de Abril com o dono da agência? - Aqui vale uma pausa: o dono da agência era daqueles que considerávamos um paizão e, logo, permitia uma brincadeira desse estilo.
Todos aprovaram de primeira a ideia e logo estávamos debruçados no computador buscando referências de brincadeiras criativas e divertidas para a ocasião. Desde ideias estapafúrdias até simples ações foram surgindo, mas nenhuma que agradasse em cheio. Até que um estagiário, daqueles tímidos que mal conseguem levantar o braço por inteiro de tanta vergonha, se manifestou: Que tal se fingissemos uma greve?
Expressões desconfiadas se revelavam, coçadas na cabeça e troca de olhares se combinavam e, enfim, uma salva de palmas. Perfect! A ideia do século. Todos caíram na risada antes mesmo de pensar a mecânica da ação. "Nossa, imagina a cara do dono!?!" era proferido em uníssono pela agência.
Não tínhamos muito tempo para fazer uma superprodução hollywoodiana, então nos viramos com os materiais disponíveis na empresa. Como a ideia era simples, bastavam alguns cartazes com frases típicas de grevistas e um breve treino de "gritos de guerra" para dizer.
O dono estava em uma reunião importante com cliente, em outra cidade, e deveria chegar no meio da tarde. Nessa hora deveríamos estar, impreterivelmente, na porta da empresa fazendo a baderna.
O mutirão se formou e todos os jobs, que não eram poucos, foram deixados de lado. Tudo pela brincadeira que estava cada vez estimulante. Em algumas horas, cartazes com os dizeres "GREVE", "Melhores Salários" e "Chega de Pizza" estavam prontos, para gargalhada geral.
Para nos ajudar, por volta das 15h, o dono liga para uma das funcionárias pedindo algo e informando que estava chegando. Foi uma correria frenética para a rua. Cartazes a postos, grito de guerra afinado e começou a balbúrdia. "Chega de clemência. É greve na agência" (de minha autoria, redator serve pra isso também). Eram cerca de 10 pessoas tirando o perfil pacífico do bairro. Não demorou e logo meia dúzia de curiosos observavam tudo a distância.
E, enfim, avistamos o carro do dono se aproximando da agência. Era o sinal verde para intensificar a ação. A gritaria era fervorosa. Até que o dono estaciona o carro e antes mesmo de trancá-lo aponta o dedo para nós e diz as seguintes palavras:

"Bando de filhos da puta, sem noção. Ingratos do caralho, que porra é essa? Tão achando que aqui é o que, seus imbecis? Voltem pro trabalho já, palhaçada, só me faltava essa. Quer saber, estão todos demit…

E antes que ele pudesse acabar a frase, gritamos: "Primeiro de Abril", corremos às nossas mesas, aceleramos o trabalho, ficamos até mais tarde e pedimos pizza. Acho que a reunião com o cliente não foi legal.

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