A viagem da aranha (crônica retrô)


Cara, aconteceu uma coisa muito louca agora. Mas antes tenho que explicar uma coisa. Não sei se todos sabem, mas trabalho na criação de uma agência de propaganda aqui em Campinas/SP. Um de nossos clientes é uma megastore de brinquedos e recentemente criamos um tablóide (estilo um jornalzinho) de ofertas. Como se trata de uma loja de brinquedos, fizemos uma criação lúdica, simulando um mundo de imaginação, cheio de cores, plantas, personagens e brinquedos. Detalhe: Tudo em 3D, o que dá um efeito de sobressalto, volume, textura e vida na imagem.

Feito o material, coloquei um dos exemplares na minha mesa e segui trabalhando. Não mais que de repente, notei uma pequena aracnídea caminhando com suas 8 patas sobre a mesa. Percebi que ela estava tristonha, cabisbaixa, com passos depressivos e não vendo mais sentido na vida. Posso afirmar isso porque ela deixava um rastro de lágrimas pelo caminho. Mas a pobre aranha-filhote não sabia o que estava por vir. Sim, meus queridos leitores, aconteceu o que estão pensando: a aranha deu o primeiro passo no tablóide. E tudo se transformou.

A aranha entrou em um mundo paralelo. Foi demais aquela visão para ela. Provavelmente ela atribuía isso a um presente de SpiderGod ou simplesmente ao efeito colateral do remédio antidepressivo. O fato é que ela entrou numas de Woodstock com Rave Psicodélica Cósmica. A bicha surtou neste mundo de cores e brinquedos. Andava de um lado para outro como se não soubesse por onde começar. No começo parecia assustada, mas logo entregou-se ao Wonderful World de papel. Fez amizade com a Barbie, andou de Caloizinha, apostou corrida com a formiga maluca, entregou flores à centopéia de pelúcia, jogou War com o Louro José e fez uma casinha de sapê com um Lego.

A aracnídea estava levada da breca e divertia-se de montão. Por alguns minutos ela esquecia as amarguras da vida e fez dali o seu mundo perfeito. Isso me fez refletir que não é preciso dinheiro nem tampouco esforço para ser feliz. Basta colocar na cabeça que somos capazes de reverter o negativo. Uma mente otimista certamente transforma o mundo em nossa volta.

A alegria contagiante da aranha chegou ao meu coração e por alguns segundos me envolvi em suas brincadeiras. Apesar de todos os personagens serem somente ilustrações, a aranha teve o dom de dar vida a cada um. Ela conversava com cada elemento do tablóide. Eu podia jurar que inclusive aquelas músicas de filmes da Disney estavam tocando naquele ambiente com direito a uma bolinha pulando em cada palavra para todos cantarem juntos. Me senti até um pouco responsável pela salvação momentânea da invertebrada multipatas. Meu dia de trabalho tornou-se uma Sessão da Tarde Especial de Dia das Crianças de tanta fantasia.

O tempo foi passando e a aranha chegava ao fim dessa jornada, já que percorria os últimos centímetros do tablóide. Fiquei em um dilema: deixar a aranha voltar ao mundo aqui de fora ou prolongar essa alegria milagrosa? Pensei, analisei, pesquisei qual as vantagens e desvantagens de tirar um ser vivo de seu verdadeiro mundo, os efeitos no cérebro, a dependência física e outros fatores. Respirei fundo, pois estava brincando de Deus por selar o destino de uma alma, mesmo que de uma aranha, e cheguei à resposta que meu coração e minha razão avalizavam: peguei o tablóide e esmaguei a aranha até a morte. E voltei a trabalhar.

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