Beavis, Butthead and Teletubbies


Eu deveria ter vergonha de relatar esse fato em minha vida. Mas não tenho. Aconteceu em meados de 2003, quando morava em Fortaleza/CE. Na época eu dividia o teto temporariamente com um grande amigo de infância, até que eu achasse um local definitivo para morar. Estava recém chegado à cidade, conhecida por suas belas praias, vida noturna agitada, sol praticamente o ano inteiro, enfim, um convite ao curtir a vida adoidado.
Em um fim de semana qualquer recebemos um convite para uma big festa, open bar, high society, beautiful people, all inclusive, VIP e crazy little thing called love. Claro, não recusamos. E como lobos famintos, abusamos de tudo. Resultado: a partir de certa hora da madrugada, não lembramos de nada e os anjos da guarda nos conduziram de volta ao lar. Se aconteceu algo que merecesse uma crônica, sinceramente foi apagada da minha memória.
Por volta das 9h31 do domingo, acordei com o sentimento de ser atropelado por uma Scania, que transportava produto inflamável, desgovernada. Levantar da cama era como se precisasse içar a Torre de Pisa com uma corda cheia de espinhos. Depois de feito o ritual do despertar, avistei meu amigo esparramado pelo sofá da sala, com o controle remoto quase caindo da mão e um aspecto de quem lutou com guinús assassinos de Botswana. Ele olhou para mim sem conseguir proferir uma palavra, somente um sinal com os olhos, que eu imaginei ser o bom dia no dialeto dos Pinguçus Cearensis.
Pedi para que ele providenciasse um lugar no sofá para mim. Sem dizer absolutamente nada, se afastou e autorizou meu pouso. Perguntei: "E aí?" e ele respondeu, com voz trêmula: "E aí". E o diálogo parou por aí. É, amados leitores, a coisa estava feia.
A partir deste momento nos transformamos em Beavis e Butthead, aquele desenho que passava na MTV e mostrava 2 garotos lesados mentalmente, sentados no sofá, vendo TV e emitindo grunhidos estranhos. E era exatamente isso o que estava acontecendo. Meu amigo simplesmente corria os canais em busca de algo que nem ele sabia o que era. E nada de diálogo. Ao invés de melhorarmos, estávamos chegando ao estado zumbi. Só entramos de fato neste nível quando algo terrível aconteceu…(suspense).
Entramos em outro plano cósmico. O controle remoto nos direcionou a um episódio de Teletubbies. Sim, aqueles bonequinhos coloridos que vivem em um mundo igualmente colorido e desenvolvem diálogos monossilábicos extremamente repetitivos. O mais famoso é o conhecido "Está na hora de dizer tchau. Tchau! Tchau! Tchau!". E engana-se quem acha que as aventuras de Tinky Winky, Laa-laa, Po e Dipsy são voltadas exclusivamente a um público infantil, quase recém-nascido, com o objetivo de entreter nossos anjinhos. No estado em que estávamos, os Teletubbies nos transportavam a uma dimensão perigosa. Era praticamente uma adbução. A repetição das palavras funcionava como agente hipnotizador. As cores fortes e vibrantes prendia a nossa atenção. E os personagens eram enviados de Satã para roubar as nossas almas bêbadas e vulneráveis.
Em certo momento estávamos imóveis, olhando Tinky Winky repetindo a palavra "bola" 395 vezes enquanto corria atrás de uma gigante. O dedo polegar do meu amigo não conseguia apertar o botão de mudança de canal. E eu não tinha forças para suplicar que ele fizesse isso.
O auge ocorreu quando Laa-laa achou uma cadeira no meio do jardim florido e disse: "cadeira, ihihihi". Logo após, Po replicou: "humm, cadeira". Na sequência, Dipsy indagou: "cadeira??". E eu, olhando para meu amigo, respondi: "ééé, cadeira". Meu amigo não mudou uma vírgula de sua expressão apática e inerte. Praticamente um coma facial.
E eis que chega a hora de dar tchau. Finalmente entendi o motivo. Após a repetição cansativa de "Tchau", eu e meu amigo despertamos dessa maldição. O controle foi acionado e a TV foi, enfim, desligada. E voltamos, assustados, à nossa rotina. Sem saber o que, de fato, aconteceu com nossas mentes.



Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O negão da piroca

Sábio guru

Vaguinha difícil