Deu merda


- Essa crônica é inapropriada para quem sofre com enjoo, náusea ou estômago sensível -

Aconteceu em meados de 2002. A internet havia apresentado um problema que não conseguia solucionar e, depois de infinitas tentativas e muito a contragosto, recorri à Central de Atendimento da NET, um dos piores serviços que existem no mercado. Depois de 20 minutos, consegui agendar uma visita técnica, em um sábado, entre 8 horas e meio dia.
O sábado chegou e acordei 7h30, para não dar sopa pro azar e não ter que agendar outra visita. Tomei um café da manhã reforçado e esperei ansiosamente o técnico. Exatamente às 7h55, uma dor de barriga deu sinal de vida em meu ventre. Seria algo normal, só ir ao banheiro e tudo bem, mas não. Não havia ninguém em casa e se eu me ausentasse por míseros minutos, o técnico iria embora sem nenhum peso na consciência. Precisava aguentar. Eu sabia que, pela Lei de Murphy, no momento que eu me sentasse no vaso sanitário a campainha iria tocar.
Tentei ligar a TV para me distrair, evitei movimentos bruscos, fiquei quietinho no meu canto, mas o intestino grosso fazia questão de expelir as fezes para liberar a área para o café da manhã que estava chegando. Tentei travar o músculo retal para conter a fúria fecal que estava por vir. Os gases ácidos compunham um cenário de Inferno de Dante. Qualquer piscada poderia determinar a liberdade de uma manada desorientada de fezes. Minha cueca não tinha estrutura para suportar um público tão grande de cocozinhos e big troços. Rezei o Pai Nosso para que Deus tivesse piedade de mim, mas os trovões do apocalipse anunciaram que o Big Bossta estaria a caminho e nada poderia detê-lo. Teria que ser ligeiro. Como um corredor de marcha olímpica, fui ao sanitário. A coisa estava tão feia que precisava daquelas faixas amarela e preta usadas por policiais para isolar locais de crimes hediondos.
Na porta do banheiro já tirei a calça, sentei e…adivinhem? adivinhem? Claro, of course, offensichtlich, 明顯, évident, ovvio que a campainha toca. O problema é que não conseguia controlar o tsunami de excrementos que saía de meu ânus. Suspeitava que partes de órgãos estavam vindo com a enxurrada de totôs. E a campainha tocava pela segunda vez. O desespero tomava conta de mim. E a avalanche de titicas de diversos tipos não dava trégua. O suor denunciava que não estava nada bem, mas eu precisava vencer o desafio e conseguir estancar a hemorragia do velho barreiro. Respirei fundo, dei aquela última força para os remanescentes evacuarem e vesti a calça, assim mesmo, sem limpar, pois a campainha dava seu terceiro toque.
Com aquela cara de abatido, recebi o técnico e apontei o lugar onde estava o modem. Daí você, amigo leitor, sensibilizado com tudo, pensa: "Bom, agora ele vai no banheiro terminar o serviço". Bem que eu queria, mas não foi bem assim. A sala onde estava o modem tinha objetos de valor e não podia deixar o técnico, que tinha uma cara de mal encarado, sozinho. E começou a aflição. Aquele calor das fezes mal limpadas transpondo os limites retais e chegando à virilha. A impressão de que o mel do totô estava escorrendo na coxa. A nascente de uma lágrima estava prestes a se formar em meu globo ocular. E o técnico realizava testes e testes, em uma demora sufocante. Rezava mais um Pai Nosso suplicando pelo fim daquele martírio.
E como um golpe de misericórdia, sentei-me, totalmente desvalido, no sofá da sala. A bosta se espalhou, como uma panqueca na frigideira, em minhas nádegas. O cheiro começava a dar o ar da graça e logo me afastei do técnico, mas sem perdê-lo do meu raio de visão. Estava em um estado deplorável. Física e psicologicamente.
Meia hora depois, o serviço acabou. Acompanhei o profissional até a porta. E, cabisbaixo, fui conferir a tragédia. Perdi a calça, perdi a honra. Precisava de um banho. E de um psicólogo.

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