Faz um Passa Quatro


O título acima tem explicação: Reza a lenda que para provar que você não está embrigado é preciso fazer o "4" com as pernas. E como a crônica de hoje se passa na cidade mineira de Passa Quatro, o trocadilho está feito. Infâme, mas foi o melhor que consegui fazer.
Fomos curtir o feriado de Páscoa em família nesse charmoso e bucólico cantinho aos pés da Mantiqueira. Visuais deslumbrantes, passeios incríveis, trilhas desafiadoras, mas o que eu queria mesmo era beber. E nesse quesito a coisa foi avassaladora: 50 litros de chopp, várias caixas de cerveja, destilados, churrasco, boa música, gente animada e uma bebedeira homérica se instalava neste que vos escreve humildemente.
Tudo isso começou por volta das 13h e lá pelas 22h comecei a perder a noção. Além dos tradicionais falar alto, cambalear e derrubar copo, me peguei dançando Guantanamera, um clássico da música latina, para gargalhadas dos presentes e vergonha alheia da minha esposa. Minha coreografia mais se assemelhava com uma convulsão do que propriamente uma dança caliente. A partir daí, tudo o que aconteceu foi perdido na memória. A patroa jura de pé junto alguns fatos que ocorreram, mas sinceramente não me recordo. Nada muito grave, apenas pequenos micos e comentários impertinentes sobre assuntos variados.
No dia seguinte, com uma ressaca monstruosa, mais um dia de bebedeira era esperado. Peguei mais leve, mas mesmo assim terminei repetindo a coreografia ridícula de Guantanamera. Não sei se era o clima de serra, mas a verdade é que saí do corpo no fim de semana.
Mas uma reviravolta me aguardava no último dia. Logo de manhã, estavam combinando um pocket passeio para conhecer alguns pontos turísticos da cidade antes de voltarmos para casa. E entre eles um projeto muito legal, chamado Brasil nota 10, o mundo das miniaturas. É uma espécie de museu de cenários históricos brasileiros, todos em miniaturas. Sinceramente achei meio chato (eu falei legal antes?), ainda mais com ressaca, mas achei justo citá-lo aqui, pois acabei descobrindo 2 motivos para tal: as miniaturas foram feitas por crianças carentes da cidade e o governo não dá nenhuma ajuda ao projeto, algo muito triste.
A visita começa com um vídeo de uma minissérie da Globo que foi parcialmente gravada na cidade e retratava a Revolução de 32. Logo em seguida percorremos salas, cada uma com miniaturas de situações da guerra anteriormente mencionada. Eram maquetes cuidadosamente construídas, com um nível de detalhamento surpreendente, mas a parte chata era a quantidade exagerada de maquetes e a explicação robótica de meninas que decoraram aqueles textos. Mas tudo bem, acho que minha ressaca não permitiu curtir o projeto como merecia.
No meio do passeio, o foco se perdeu. Entramos em salas que simulavam cenários de outros países, senzalas, palácios, enfim, uma suruba cultural. Até que chegamos na sala que justifica essa crônica. A sala levava o nome de Jorge Amado, famoso autor baiano e o cenário reproduzido era o da minissérie global "Gabriela".
Eu já não acompanhava mais a visita com aquele interesse, então me encostei na parede, no canto da sala. E a guia começou: "Esta sala simula um bar tipicamente baiano da década de 20. Aqui a caixa registradora e o balcão onde os coronéis se confraternizavam. Ao meu lado, os bonecos de Gabriela e Nacib e ali, encostado na parede, o bêbado". Vou repetir: "… e ali, encostado na parede, o bêbado". 
Lembram onde eu estava, amigos leitores? Sim, encostado na parede. A guia apontou seu dedo com toda segurança para mim e proferiu aquela frase. Todos viraram seus rostos em minha direção. Fiquei acuado. Meu mundo caiu. Como será que ela sabe? O que será que fiz na noite anterior que minha esposa não contou? Qual a razão dela desviar o foco da Gabriela para me acusar desse jeito? Será que minha fama chegou ao sul de Minas Gerais? Muitas questões agonizavam em minha mente. E para não parecer antipático e tentar resgatar o mínimo de honra que me restava, acenei a todos os presentes com um sussurro tímido de "opa, tudo bem, gente?". E quando desviei o corpo para sair da sala, um alívio: Um boneco estava ao meu lado. O bêbado verdadeiro a quem ela se referia. Disparei a rir incontrolavelmente. Minha esposa fez o mesmo. A sala, que tinha em torno de 10 pessoas, ficou em polvorosa. Meu passeio acabava ali mesmo. Não tinha mais clima. Mas valeu a viagem.

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