Missão: encontro com Dilma


Brasilildo de Souza Silva era um homem determinado. E não estava contente com a situação do nosso país. Escândalos de corrupção, altos índices de violência, saúde precária, falta de infraestrutura, educação vergonhosa, enfim, motivos não faltavam para que ele se revoltasse. E diferentemente da maioria da população, que via nas redes sociais a solução para todos os problemas, Brasilildo preferia fazer à velha maneira. Sair à rua, manifestar seu descontentamento, olhar nos olhos e falar na cara.
Acontece que ultimamente houve uma explosão de escândalos e a população se via sem forças para lutar, já que a impunidade protegia os desonestos. Isso irritou profundamente Brasilildo que tomou uma decisão drástica: ir à Brasília, conversar com a presidente Dilma. Ele precisava exercer o seu patriotismo em sua plenitude.
A família, em princípio, foi contra essa "loucura", afinal, mais de 1500 km separavam Caxias do Sul/RS, sua terra natal, da capital federal. Isso significava, no mínimo, 1 mês de caminhada. E mais que isso, significava abandonar trabalho, esposa, filhos, a vida. E eles não estavam dispostos a acompanhá-lo nesse devaneio nacionalista.
Mas o tempo foi passando e seus entes queridos foram concluindo que nada o faria mudar de ideia. Era hora de apoiar. Não demorou muito e a imprensa se interessou pela história. A vontade de mudar o Brasil sensibilizou a população e encheu de orgulho a família Souza Silva. Brasilildo, no alto de seus 65 anos de idade, estava representando uma nação descontente e ao mesmo tempo com o sentimento de impotência perante os problemas que praticamente dizimavam os resquícios de esperança por um futuro melhor.
Brasilildo planejou tudo minuciosamente, prevendo alterações significativas de temperatura, cansaço, doenças, paradas para dormir, comer e outros imprevistos. Ele tinha na ponta da língua as palavras que falaria para Dilma. Duras, porém pertinentes e verdadeiras. Dificilmente a presidenta ficaria apática diante das súplicas de um pai de família que sofre com as agruras políticas deste Brasil de meu Deus.
Enfim, era chegado o dia da partida. Brasilildo não conteve as lágrimas e uma frase marcou essa breve despedida: Ele pegou seu filho de 10 anos pelo ombro, agachou-se diante dele, olhou profundamente em seus olhos e disse, com voz firme e igualmente emocionada: "eu voltarei com um Brasil melhor para você, meu filho". As cerca de 1000 pessoas que acompanhavam a cena, aplaudiram e gritaram o nome de Brasilildo, que deu seus primeiros passos rumo ao Palácio da Alvorada. A imprensa acompanhava tudo de perto, helicópteros exibiam outros ângulos de sua saída rumo à BR 116 e definitivamente um novo heroi partia rumo à sua grande missão.
Como imaginava, a viagem foi recheada de imprevistos, gripes, pés esfolados, noites mal dormidas, riscos de assalto e acidentes viários. Mas ao mesmo tempo, muitos estavam dispostos a ajudar, seja com comida, leitos para um descanso, pares de tênis e até houve quem oferecesse uma carona, mas que foi prontamente negada, pois tiraria o teor patriótico da missão.
35 dias depois, já cansado, com aparência digna de um homem que chegava de uma grande batalha, Brasilildo se aproximava do Palácio da Alvorada. Poucos metros dali, ele parou, suspirou e falou para si mesmo: Agora é chegada a hora. O Brasil não aguenta mais e eu serei o mensageiro.
Ele chegou à portaria e um segurança se aproximou: "Pois não?". "Gostaria de falar com a Dilma Roussef". "Sinto muito, ela acabou de sair. Foi passar uns dias na casa de uma amiga". decepcionado, Brasilildo respondeu: "Ok, eu volto outro dia".
E Brasilildo seguiu de volta à Caxias do Sul, sem conseguir falar com a presidenta. E ao atravessar a rua, não percebeu que o exército estava desfilando seus novos tanques de guerra Urutus. Um deles não conseguiu parar e fez Brasilildo virar panqueca. Logo em seguida, uma fanfarra das meninas da escola Cruzeiro do Sul deu o golpe de misericórdia, pisoteando Brasilildo até sua morte definitiva. Uma tragédia.

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