O homem que não sabia sorrir


Sr. Wilson é o nome fictício que vou usar para descrever o protagonista dessa crônica. Não por querer preservar sua identidade, mas nunca consegui tirar seu verdadeiro nome. Sr. Wilson trabalha na academia onde faço meus exercícios matinais. Ele é o responsável pela limpeza do vestiário masculino. Ele limpa tudo, mas bastam algumas pessoas entrarem e o recinto está sujo para ele limpar tudo de novo. Talvez isso explique o título.
Sr. Wilson estava sempre de mal humor, nunca conversava com ninguém. Eu entrava, dava bom dia, e ouvia um grunhido que preferia acreditar ser um bom dia, mas desconfio que poderia ser algo parecido com "bom dia só se for pra você, seu FDP, imprestável, imundo e distribuidor de pentelhos pelo box". Realmente confesso que minha saída do vestiário deixa rastros de pelos, suor e microcoliformes, mas é humanamente impossível sair de lá como nas propagandas de produtos de higiene, com estrelinhas da limpeza, nuvens de florais e trilha sonora gravada por cantoras líricas dos alpes suíços. Mas me sensibilizo com ele, já que são dezenas de pessoas passando pelo lugar deixando seus micróbios, bactérias, vírus, protozoários, fungos e outras espécies da mini fauna de organismos unicelulares propagadores da terrível e avassaladora peste da sujeira pós-treino. E isso fazia com que a presença de Sr Wilson com sua vassoura, pano e balde fosse necessária periodicamente.
Para ajudar você, amado leitor, a conseguir visualizar a figura, Sr Wilson já ultrapassou a barreira dos 65 anos, magrinho, com um macacão todo azul, bota sete léguas preta e sua inseparável vassoura de piaçava. Vive sempre de cabeça baixa, resmungando, com cara de poucos amigos e fico com a sensação de que está prestes a cometer um crime hediondo com o primeiro que olhar torto pra ele.
Todo dia ele faz tudo sempre igual. Entra no vestiário, deixa o balde ao lado dos armários, começa passando o pano úmido no vaso de plantas - aliás, nunca descobri qual o propósito de se colocar um vaso de plantas em um vestiário masculino, mas isso pode ser tema para uma próxima crônica - limpa as pias e vasos sanitários com esponja, passa o rodo (no bom sentido) no chão e, por fim, limpa os boxes onde as pessoas tomam banho, este o pior local do vestiário, onde encontram-se todos os elementos citados no começo do texto.
Sabe aquele velhinho de filme de terror quando a atleta entra no vestiário vazio, de noite e ela pergunta se tem alguém lá, ninguém responde, ela pergunta de novo e de repente ele aparece fungando em seu cangote, sussurrando a palavra DIE e enfia o cabo da vassoura em sua garganta, chacoalhando para que ela tenha uma morte surreal, pega seus órgãos vitais, come com farinha de rosca, se transforma em zumbi com aliens saindo de suas narinas e depois dança kuduro vestido de Carmen Miranda com um chapéu de frutas secas marinadas com picles argentinos? Pois bem, é o próprio Sr. Wilson. Assustador, não?
O fato é que nunca vi qualquer esboço de sorriso em seu rosto judiado pelo tempo e pelas mazelas da vida. E olha que o vestiário é um local onde amigos se encontram eventualmente e contam piadas pesadas, já que é um ambiente extremamente masculino. Nem assim consegui ver os dentes ou dentadura do Sr. Wilson.
Talvez ele queira curtir a idade dando milho aos pombos na praça central da cidade, jogando bingo com seus amigos, ficando à toa na vida esperando o amor lhe chamar para ver a banda passar, cantando coisas de amor, pulando de para-quedas, enfim, aproveitando a melhor idade de uma outra forma que não limpando a sujeira alheia. Mas a vida não sorriu desse jeito para Sr Wilson.
E é assim que essa crônica termina. Sem começo e, até o momento, sem fim. Quem sabe um dia ele sorri e eu volte aqui para contar. E enquanto isso não acontece, vou contar uma piada:

O vovô tinha Alzheimer e foi para a cozinha

Vovó - Onde você vai, meu velho?
Vovô - Beber água
Vovó - Então anota num papel o que eu quero: um suco de limão com 2 colheres de acúcar
Vovô - Não preciso anotar, isso vou lembrar
Vovó - Melhor anotar, você esquece as coisas
Vovô - Imagina, deixa comigo

Meia hora depois

Vovô - Tá aqui sua panqueca de damasco com carne seca
Vovó - Eu te avisei pra anotar, tinha certeza que você ia esquecer de trazer meu javali assado com molho de maçãs belgas.

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