Pop-up


Essa aconteceu bem no início da minha carreira. Não era estagiário, mas o fato foi digno de um. Trabalhava em uma agência que começava a dar seus primeiros passos no mercado e a dona vivia na rua, hora prospectando novos clientes, hora cultivando os que já tinha. Estávamos acomodados em uma microsala, com pouco mais de 15 m2, onde trabalhavam, além de mim e a dona, uma espécie de assistente da CEO.
Logo no primeiro horário de um certo dia, a dona e sua assistente marcaram uma importante reunião com um prospect em uma cidade relativamente longe daqui e que fatalmente preencheria o dia delas, ou seja, estaria sozinho na agência naquela ocasião, um convite à vadiagem. Já organizava minha agenda do que faria a partir de então. Incluía coisas como almoço estendido, telefonemas para amigos, jogos para PC, saída rápida para um sorvetinho no shopping, entre outras coisas. Quem visse a minha expressão ao saber que estaria sozinho, desfrutando da liberdade laboral, certamente diria: está com cara de sapeca, perereca e levado da breca. Vai aprontar de montão, pintar o sete, fazer arte e arrebentar a boca do balão.
E foi o que realmente aconteceu. Não sabia nem por onde começar. Decidi começar por olhar meus e-mails. Vale aqui lembrar que a internet daquela época não era tão rápida quanto hoje - não que hoje seja rápida. Dependia da qualidade da conexão, do horário, enfim, deveria contar com a sorte para navegar tranquilamente nas ondas da world wide web. E ao olhar meu primeiro e-mail, notei que o mesmo continha um link para uma página de conteúdo adulto. Olhei para um lado, olhei para outro, pensei, refleti e cliquei. Voilà! Estava entrando em uma dimensão paralela, onde o pudor era deixado de lado, as bizarrices permitidas e a toda nudez não seria castigada.
Mas não deu nem tempo de começar a conhecer o portal Pombaloca (esse era o nome, vocês devem imaginar o conteúdo) e ouço a trava da porta sendo acionada. Alerta vermelho! Abri a janela do word e fingi continuar meu trabalho. Olhei para trás e era a dona, afoita, já me dizendo: "Mauro, abre a apresentação da campanha X para o cliente Y. Ele já está subindo e quer ver. Enquanto isso vou no banheiro rapidinho."
Nessa hora a minha cara era de decepção. Tiraram o docinho da criança. Só que o pesadelo ainda estava por começar. Mal a dona entrou no banheiro, entram pela porta a assistente e mais 3 pessoas, sendo 2 mulheres, que representavam o cliente mais importante da agência, que respondia por quase 80% do faturamento. Foi quando o anjinho da minha consciência sussurrou em meu ouvido: "Mauro, por algum acaso a palavra Pombaloca te remete a algo?"
Meu Deus, fucking god, oh lord! Eu precisava fechar a janela do site. Mas não podia despertar qualquer suspeita, algo difícil para uma sala de 15 m2. Tentei posicionar meu corpo para tapar o raio de visão de todos. Com um golpe ninja cliquei sobre o "x" da janela, mas algo sairia errado. O motivo? Leia o título dessa crônica. Sim, amigos, todo mundo que de alguma forma desfrutou da internet no final dos anos 90 deve ter passado por isso: os pop-ups que saltavam desenfreadamente no monitor. Começou um frenético jogo de videogame onde janelas com publicidade de produtos eróticos, sexo com animais, mundo gay e afins tentavam invadir meu computador e eu precisava aniquilar cada uma delas enquanto mini enfartos do miocárdio, Parkinsons crônicos, convulsões severas e AVC's múltiplos me atacavam. Simultaneamente eu precisava observar se algum cliente estava reagindo a tal dantesca cena.
Praticamente pensando em fingir uma morte súbita ou pular da janela do prédio, a dona da agência dispara: "E aí, Mauro, podemos ver a apresentação?". Não tive dúvidas. Em um movimento brusco reiniciei o computador e disse, limpando as gotas de suor gélido que descia da testa: "Não sei o que acontece, está travando". Poderia ser um golpe de mestre, mas estava prestes a adentrar o desconhecido. O que aconteceria após a reinicialização? Os pop-ups voltariam? A mim, só restava rezar. E o fiz, com a força da fé de um adorador de Padre Cícero. O problema não eram os pop-ups e, sim, os conteúdos altamente explícitos. As cenas eram fortes e motivos sólidos para uma justa causa e, quiçá, detenção.
Foram os segundos mais longos da minha existência, mas no fim os pop-ups não retornaram e a apresentação foi um sucesso. A partir daí a ansiedade era para que todos fossem embora, pois precisava ir ao banheiro.

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