A história de amor de Manfredo (crônica retrô)


Todo dia, Manfredo passava pelo centro da cidade para ir ao trabalho. A rotina era a mesma há mais de 15 anos. Manfredo era casado, tinha 4 filhos, uma vida social agitada e era muito bem remunerado em seu cargo de CEO em uma empresa de logística em Curitiba. Manfredo era um homem bem-sucedido e de bem com a vida.

Certo dia, mais precisamente em 23 de Janeiro de 2006, Manfredo reparou que no caminho do trabalho havia uma mulher sentada em uma cadeira de rodas com uma feição triste, encostada em uma barraca de churros. A partir deste dia, a curiosidade de Manfredo foi se aguçando. "Porque esta mulher está tão triste?". "Porque esta mulher sempre fica no mesmo ponto?". E todo dia estava lá, a mulher triste em uma cadeira de rodas. Até que Manfredo resolveu aproximar-se da moçoila:

  • Desculpe, mas eu passo todo dia aqui e vejo que está triste e sempre no mesmo lugar. Posso te ajudar?

Com dificuldade em articular as frases e com voz trêmula ela responde:

  • Sim, meu nobre homem. Quero almoçar no restaurante do outro lado da rua, mas ninguém parou para me ajudar.

Aquilo cortou seu coração. E fez nascer uma linda amizade. Todos os dias Manfredo cancelava importantes reuniões para dar um pouco de alegria à vida daquela mulher. Manfredo foi se envolvendo com a triste história de sua vida e não media esforços para ver um singelo sorriso naquele rosto marcado pelos percalços de sua existência. Manfredo abria mão de alguns milhões de reais em negócios para entreter a donzela. Ele percebera que não há bens materiais que pague a felicidade no coração. E para isso não precisava dinheiro.

O envolvimento foi aumentando e Manfredo começou a se apaixonar pela mulher. Não parava de pensar um só segundo e não via a hora de estar com ela. Mas isso implicava em um problema que logo veio à tona. Manfredo começou a abrir mão de tudo que construiu. E as conseqüências vieram devastando sua vida. Sua ausência na empresa fez com que a lucratividade caísse vertiginosamente. Logo, os sócios começaram a roubar os clientes e a corporação foi à falência. Seus amigos, por puro preconceito, começaram a se afastar. Sua mulher arrumou um amante e fugiu para o Timor Leste. Seu filho Martim começou a se envolver com cocaína. Sílvia, a filha caçula, vendia seu corpo para sustentar a faculdade. Carlos, o filho do meio, foi jogar na Ponte Preta e Mila montou o Calypso Cover.

Nada mais restara para Manfredo. Mas ele não ligava. Só o amor da mulher de cadeira de rodas importava. E quando ele se preparava para a primeira noite de amor, a mulher lhe disse: só faço se casarmos. E Manfredo não titubeou. Marcou o matrimônio já arrancando a cueca de seda italiana. E mais uma vez a mulher lhe interrompe: preciso lhe dizer uma coisa.

A mulher se levantou da cadeira de rodas, andou até ele e, sob o olhar atônito e surpreso de Manfredo, ela disse: Eu não sou aleijada e sou um homem. Essa é uma promoção de Dia dos Namorados das lojas Te-Peguei. Quem desse a maior prova de amor ganhava uma bicicleta e um squeeze. E você ganhou. Parabéns!!!

Revoltado, Manfredo pegou a bicicleta, encheu o squeeze de água e saiu pedalando ferozmente rumo à estrada, sem destino. Pensou na vida, nas burradas e caiu em prantos. Já refeito do trauma e após horas pedalando, resolveu dar um gole de água. Nessa hora um corvo cagou em sua cabeça e, ao limpar, ele foi brutalmente atropelado por um caminhão-frigorífico desgovernado. Bom, é isso.

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