Cego de amor


Breno era um homem cheio de sonhos. De família pobre, saiu ao mundo ainda cedo em busca de realização pessoal. Nada em sua vida era fácil. Podemos afirmar que ele sempre comeu o pão que o diabo amassou, mas a crença em Deus e sua força interior eram capazes de romper quaisquer obstáculos.
Por mais que tentassem derrubá-lo, Breno voltava ainda mais forte. E um fator fez com que ele desenvolvesse esse fôlego extra: a cegueira. Sim, Breno nasceu cego, mas quem o conhecia sabe que não se tratava de uma deficiência. De maneira alguma ele usava isso como fonte de comoção. Ele fazia questão de levar uma vida normal. Até o seu limite.
E o limite um dia chegou. Sua força se esgotara. Cada obstáculo era derrubado, mas tirava um pouco de sua energia. A vida era cruel com ele. A solidariedade quase não existia. A solidão era sua companhia. Eram negativas de trabalho. Era a impossibilidade de se fazer útil. Era a cegueira social confrontando a sua cegueira natural. Era a tortura de não ser notado e de não enxergar um futuro. Breno desabou. Literalmente. Caiu na valeta naquele dia chuvoso e frio de São Paulo. E desmaiou.
Não se sabe ao certo quanto tempo passou, mas Breno foi acordado com o toque suave de uma mão auxiliadora. "Olá, pobre homem, deixe eu te ajudar.". Aquilo mudaria a vida de Breno. Um toque de anjo, segundo Breno. Era mais que uma ajuda. Era um estímulo diferente que acionava seu coração. Era amor. O verdadeiro amor. "Por favor, deixe eu sentir sua mão de novo", pediu Breno tomado pelas lágrimas. Era inexplicável o sentimento. Era forte, acalentador, algo que a ciência não explicaria.
Dias se passaram e realmente o fato virou um caso de amor. Os dois se viam em uma paixão profunda. "Eu vou cuidar de você…sempre", dizia Penélope, sua musa. A partir deste momento, Breno tinha um único desejo.

- Eu queria tanto te enxergar
- Amor, eu tenho medo. Você pode se assustar.
- Com o que?
- Eu tenho medo que você me veja e se decepcione
- Nunca, eu te amo, seja qual for seu defeito
- Eu não queria que você me visse com esse defeito. Vamos continuar assim, está tão bom

Mas Breno teimava no seu desejo. Todo dia ele repetia que queria vê-la. E todo dia o amor só fazia crescer. Até que algo estranho começou a acontecer. Penélope começou a sair de casa todo fim de semana e voltava na segunda. "Amor, quero que confie em mim. Arrumei um bom trabalho aos fins de semana. Não estou te traindo. Mas precisamos de dinheiro para manter nossos sonhos.". "Confio cegamente em você, amor.", respondeu, meio confuso.
Mas Breno estava cada vez mais curioso. "Que defeito tão terrível seria esse que ela não pode contar?". Penélope se esquivava quando ele tocava no assunto. O que era amor virou desconfiança. "Eu me entrego 100% pra você, porque não pode fazer o mesmo?", reclamava. "Só peço que não me cobre e confie no meu amor."
O relacionamento foi se desgastando até que Breno deu o ultimato: "Penélope, não aguento mais…". Antes que ele terminasse a frase, Penélope falou, de forma entusiasmada:

- Amor, seu sonho será realizado.
- Como assim?
- Sabe meu trabalho nos fins de semana? Foi para juntar dinheiro e realizar a sua cirurgia. Vamos amanhã para os Estados Unidos. Você vai me ver. Nosso amor é maior que tudo.

Breno caiu em lágrimas e beijou Penélope com um amor descomunal. E correu para arrumar as malas. No dia seguinte sua vida mudaria para sempre. A ansiedade era grande. E Penélope não desgrudava dele. Tudo estava preparado. A cirurgia durou exatas 2 horas. Uma nova técnica desenvolvida na Universidade de Ohio. Os nervos ópticos eram conectados a chips de smartphone que recebia sinal do satélite e este retransmitia a imagem do fundo da retina.
Era hora de retirar o curativo. Ele fazia questão de que Penélope seja a sua primeira visão. Seu coração disparava. "Are you ready?", perguntava Dr. Brian. "YES!"
O esparadrapo que segurava o curativo foi solto. A luz forte dificultava a visão. Mas aos poucos os olhos iam se adaptando. Um semblante se formava diante de seu globo ocular. Até que ele reconheceu um……TRAVECO?

- Filho da Puta, você é um traveco?, disse enxergando um homem de 2 metros de altura, vestido de Cher, maquiagem grotesca e uma tatuagem do Sepultura na coxa.
- Sou, amor, por isso não queria que visse. Meu trabalho era numa boite. Mas nosso amor supera tudo, não?
- Nem fodendo, prefiro morrer.

Breno saiu correndo sem destino. Como ainda não enxergava 100%, não viu que ocorria uma parada da Disney na avenida. Foi atropelado pelo carro da Frozen e congelado com os flocos de neve. Morte instantânea. E lúdica.



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