Depressão coletiva


Não sei se todos sabem, mas em pouco menos de 2 meses minha princesa vira ao mundo para alegrar nossas vidas. E para estarmos melhores preparados para sua chegada, resolvemos fazer um curso de preparação para gestantes, extensivo aos pais. O curso foi realizado em um importante hospital da cidade, com profissionais da saúde ligados à maternidade (pediatra, fisioterapeuta, entre outros) e estava dividido em 4 aulas, 1 por semana, todas elas bem didáticas e descontraídas. Bom, quase todas…
Ontem foi o último dia de curso e na minha opinião o mais importante, pois abordaria os cuidados com o bebê no primeiro ano de vida. Na primeira metade foram tratados assuntos leves como o sono, higiene, roupas e temperatura do quarto. Muitos mitos foram desfeitos e muitas risadas pelas neuras trazidas por tradição através de nossos avós.
Mas a segunda parte estava por vir. Precisamente às 20h30 entra um senhor com seus quase 80 anos, que mais parecia ter vindo das filmagens de The Walking Dead, olheiras profundas, olhar malévolo e um ar misterioso. Olha para a plateia, encara um por um e se posiciona para iniciar a palestra com os seguintes dizeres: "Boa noite, hoje falarei sobre acidentes com os bebês". Apesar de a maioria não perceber, nessa hora eu vi nuvens negras sobre sua cabeça com raios saindo a todo momento e um som ambiente digno dos filmes de terror dos anos 80. Seus lábios arriscavam um sorriso irônico, como se anunciasse ser o mensageiro das trevas. Um frio na espinha me tomou.
"Para começar, morte súbita" foi a introdução. Os casais se seguraram nas poltronas, como se estivessem prestes a andar na montanha russa. Dava para ver nitidamente a aflição no rosto das mães. Com voz pausada, baixa e sarcástica, ele continuou: "Seu filho deve dormir de barriga para cima. Se dormir de lado, pode dar morte súbita. De barriga para baixo, morte súbita. Pode dar morte súbita de barriga para cima? SIM!". Nessa hora uma das mães se retirou da sala. Provavelmente para vomitar ou agendar o aborto. O prazer com que ele descrevia as formas de acidente era notório. Entre cada acidente comentado e exemplificado com riqueza de detalhes, ele suspirava profundamente, como se acabasse de ter um orgasmo.
Os outros palestrantes estimulavam os pais a participar do assunto, trazer as dúvidas. Esse não. E mesmo que estimulasse, duvido que algum presente teria a coragem de perguntar algo, sob risco de ter uma resposta macabra e sombria.
Frases como "não adianta, seu filho vai sofrer algum acidente" e "mortes entre recém-nascidos são muito comuns" trazia angústia e pânico aos espectadores. Seja em um simples banho, na amamentação, em um passeio matinal ou na papinha de todo dia, o bebê sempre será rondado pela sombra da morte, pelo semblante do tinhoso e pelo vulto do cancro do pé preto. E por maior que seja o seu cuidado, nada poderá mudar as vontades do cramunhão.
E a palestra continuava. O assunto era extenso. Mês a mês, os acidentes mudavam, mas continuavam fatais. Cada um deles era ilustrado com extremo mal gosto. Criança totalmente queimada com o dedo na tomada, facas enfiadas em seus corpos e corpo roxo boiando na piscina eram só alguns exemplos. Um festival de capas de disco do Sepultura ou Slayer. Se a intenção era chocar, o cara ganhou o Nobel de depressão coletiva.
Mas tudo isso não faria sentido sem a prática. E no assunto asfixia, o Dr. Die Baby Motherfuckerzinho, sacou um boneco bebê para que um voluntário demonstrasse o socorro imediato neste caso específico. O desafio era relativamente simples, pelo menos com o boneco, claro: Dar 5 soquinhos com o calcanhar da mão nas costas do bebê e depois 5 massagens cardíacas com os dedos no peito dele. Tudo para que ele coloque para fora o alimento que dificulta sua respiração.
A voluntária posicionou o bebê e começou com os socos. E o Sr Nightmare interrompeu, dizendo: "Parabéns, você acaba de quebrar as costelas do SEU FILHO". A acusação abalou o psicológico da futura mãe. Ela nunca mais será a mesma.
Após essa depressão coletiva, era hora de terminar. O abatimento generalizado era uma espécie de anestesia moral para todos. Mesmo ele afirmando que apesar dos acidentes, ter um filho é maravilhoso, ninguém conseguiu sair ileso do nocaute. Todos saíram em silêncio. Prontos para transformar suas casas em fortalezas de segurança máxima vigiada 24 horas por dia.

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