O fim de uma era (crônica retrô)


A vida nos dá sinais claros quando insistimos em certas coisas sendo que já é hora de terminar o ciclo em vigência. Não entendeu nada, não é? Vou explicar. Quem me conhece diz que sou uma eterna criança. Não só na maneira de vestir como em atitudes dignas de um adolescente espoleta. Cheguei a pensar que o casamento fosse o sinal definitivo de que não tenho mais idade para certas coisas e que agora seria hora para ter outra "way of life". Outros programas, outros horários e outras atitudes. Mas não foi. O verdadeiro e crucial aviso divino aconteceu neste fim de semana que, coincidentemente, foi o final de meu inferno astral.

Essa semana comemorei meus 36 anos de vida e como todo "tiozão teen" resolvi realizar uma série de comemorações. Assim, marquei diversos programas regados à álcool. Começava na quinta, em um happy hour non sense, e terminaria no Domingo, com um show do Chiclete com Banana na Festa do Peão de Jaguariúna. E me orgulhava disso tudo. Dificilmente um casal recém-casado toparia tamanha insanidade.

E assim começou a jornada etílica. E assim também meu corpo resolveu dar o basta, incorporando a cantora Vanderléia, da Jovem Guarda, ao cantar: "Por favor, pare! Agora....". Foi bebedeira pesada que teve seu cume no sábado e domingo. Sábado comemorei oficialmente meu aniversário em um bar da cidade. Cheguei às 21h e só fui embora por volta das 4h da madrugada após dançar créus e fazer a sedutora "dança do cano" em um pilar do boteco.

Mas dia seguinte tinha mais. Fui a um churrasco na casa de minha tia e bem que tentei ficar só no refrigerante light. Mas não durou muito a hipocrisia. Logo estava bebericando novamente. Fim do churras, hora de encarar o ponto alto do fim de semana: show do Chiclete com Banana. Não foram poucos os comentários de pessoas abismadas com o nosso pique para encarar uma micareta em pleno domingo, principalmente após essa maratona alcoólica e com uma segunda-feira de labuta pela frente. E eu respondia, orgulhoso: Vocês são fracos, não aguentam, bebam leite!

Todos devem imaginar que ia ver o show tranqüilo, só tomando refrigerante. Não. Meu cunhado chega com uma garrafa de 2 litros de Absolut dizendo que seria para esquentar a folia. Colocou cerca de meio litro em um squeeze e fomos para a festa. Meus queridos leitores a essa hora já estão me chamando de doente e alcoólatra, mas a coisa piorou. Não sei de onde tirei ânimo para encarar esta folia, mas o fato é que estava excitado para ver o show.

Já na portaria do recinto, às 17h, o cartão de visitas. Um carro impedindo minha passagem com o motorista vomitando até a alma. Era o primeiro sinal. Descemos do carro e tomamos 2 latas de soda limonada quente misturadas com a vodka. Foi difícil. Para completar, não podíamos entrar com o resto da vodka. Resultado: teríamos que, eu e meu cunhado, virar cerca de 300 ml da "danada russa". Sem gelo, sem frescura. Cada gole descia como uma lava incandescente das profundezas vulcânicas do inferno. Tentamos minimizar o martírio mergulhando halls de melância na vodka. Após muitas caretas, terminamos a missão. Nem ficara chapado, pois provavelmente desde quinta estava alterado. Neste momento já não sabia quem eu era. Meu corpo estava em pandarecos, em migalhas.

Mas não tinha limites. Bebi mais cerveja lá dentro, mesmo com meus órgãos internos fazendo de tudo para rejeitar. Foi então que minha natureza se rebelou. Uma depressão pós-baladas insanas veio de maneira avassaladora. Me tornei um velho ranzinza. Metia o pau em tudo. Reclamava da quantidade absurda de moleques na festa (sendo que, na verdade, era eu quem estava em lugar errado), da lotação excessiva, do som alto, das músicas ruins e muitas queixas comuns à idade. Para piorar, o show, que eu acreditava começar antes das 21h, o que seria plausível, já que era domingo, estava previsto para começar após 1h da madrugada. Não suportei. O complô de meu corpo sobre minha mente deu resultado. Foi uma luta sanguinária ente o eu adolescente contra o eu tiozão. Nocaute do tiozão. Fui embora, não vi o show, voltei xingando, criticando a falta de respeito com quem trabalha, e fui dormir quase às 2h da madrugada. Hoje estou aqui, em frangalhos. Assistindo o fim de uma era. Uma era onde eu não queria aceitar que minha idade não permite mais certas coisas. Foi bom enquanto durou. Mas é hora de começar uma nova fase, mais light, mais família, mais madura. Descanse em paz, Mauro adolescente. Mas volta qualquer hora pra tomar umas!

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