Portfail, um publicitário desastrado


Faculdade de Publicidade em curso, hora de procurar colocação profissional. Mas eu não queria ser mais um. Precisava ser diferenciado para que as agências me vissem com bons olhos, já que não tinha experiência. O objetivo era a área de criação e, naturalmente, me veio a ideia de uma apresentação criativa. Não podia simplesmente chegar com o curriculum, mesmo porque não tinha bagagem suficiente para preencher 3 linhas. Pensei, pensei e cheguei em algo "genial". Entre parenteses mesmo. O motivo vocês entenderão a seguir.
O raciocínio era simples: precisava valorizar meus atributos de uma maneira nada convencional. As características eleitas por mim eram criatividade (óbvio), espírito de equipe, bom humor, paixão pela profissão e vontade de aprender. Acreditava que era o suficiente para um estudante.
Muitas coisas passaram pela cabeça, desde um poema até um telegrama falado. Mas, acreditem, foi pior que isso. Preparem os seus estômagos. Elegi 5 personagens para simbolizar e vender cada atributo e preparei uma apresentação tosca, estilo Power Point genérico e mandei bala. Ficou mais ou menos assim:

CRIATIVIDADE
Personagem - Osama Bin Laden
Como ele me vendeu - Um balão de história em quadrinhos com a fala: "O Mauro é uma bomba de criatividade!"

ESPÍRITO DE EQUIPE
Personagem - Zagalo
Como ele me vendeu - Um balão de história em quadrinhos com a fala: "Mauro em Equipe tem 13 letras. Ele é campeão."

BOM HUMOR
Personagem - Bozo
Como ele me vendeu - Um balão de história em quadrinhos com a fala: "Alô, criançada, o Mauro chegou. Trazendo alegria e o seu bom humor."

PAIXÃO PELA PROFISSÃO
Personagem - Gretchen
Como ele me vendeu - Um balão de história em quadrinhos com a fala: "O Mauro tem muita paixãããooo sssss pela publicidade, aiii, hummmm, auuu"(juro, exatamente assim)

VONTADE DE APRENDER
Personagem - Pelé
Como ele me vendeu - Um balão de história em quadrinhos com a fala: "A, B,C, A, B, C, o Mauro tem vontade de aprender"

Feito isso, imprimi as folhas e espalhei pelas agências de publicidade via Correios. Mas consegui agendar 3 para mostrar pessoalmente. Por incrível que pareça, estava muito confiante que essa aberração faria um grande sucesso e seria disputado a tapas pelas agências. E fui além: imaginei aparecer na Globo, dando entrevista sobre a ideia inovadora. Sério!
Bom, segui para a primeira agência, uma empresa de médio porte. Poucos minutos depois, surge o responsável pela criação, uma pessoa muito solícita e amistosa. Contei um pouco da faculdade, das minhas pretensões e ele me contou sobre a agência e terminou dizendo que no momento não tinha vaga, mas me avisaria conforme aparecesse algo. Nesse momento eu interrompi a conversa e pedi para que ele conhecesse minha apresentação. Com a maior boa vontade e certa curiosidade, ele aceitou e começou a ver. Dava para notar sua expressão estarrecida. Ele nem chegou na terceira página, deixou a apresentação sobre a mesa, suspirou e olhou para mim, dizendo: "não faz isso não. É algo bem polêmico essa coisa de fazer algo engraçadinho. Na dúvida, faz o simples.", e se retirou da sala, desolado.
Encarei como uma pequena derrota, mas a batalha estava longe de ser perdida. Fui à segunda agência, essa bem maior. Meia hora depois de me anunciar, chega o Diretor de Criação, agitado, querendo resolver logo. Ele pediu meu portfolio. Entreguei a apresentação. Ele olhou, me encarou e disse: "acha que isso aqui é brincadeira? Tô cheio de job e você me chama pra isso?", e se retira da sala, jogando a apresentação no lixo.
Mais abatido, fui à terceira agência. Mesmo porte da anterior. Veio o Diretor de Criação, mais jeito de porra-loca, doidão, descolado e gente boa. Nem começou a conversa e já se apropriou da apresentação. "Vamos ver seu potencial", comentou, bem curioso pelo conteúdo. "hahahahaha, nossa, olha, o Bin Laden, hahahahaha, o Bozo, nusssss, o que é isso? Cara, você é muito louco, não estou acreditando nisso". Eu tenho certeza que ele só gostou pois estava visivelmente entorpecido. Mas mesmo assim não foi o suficiente para criar a vaga. "Cara, você tem que trabalhar na Praça é Nossa, não aqui. Manda pro SBT."
E foi assim que mudei minha abordagem e consegui, mais tarde, colocação de uma maneira tradicional. Agora, os que mandei pelos Correios não sei que fim levaram. Hoje tenho contato com possíveis pessoas que receberam, mas não toco no assunto e talvez alguns deles fingem que não sabem. Melhor assim...

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