Decepção de infância (crônica retrô)


Hoje vou contar mais uma das inúmeras decepções que tive em minha vida. Mas, nesse caso, vou fazer um pouquinho de mistério antes de revelar o motivo. Bom, como toda criança sadia, eu brincava na rua, comia batata frita, jogava bombinha na casa do vizinho e brigava com meus irmãos. Isso não tem nada a ver com o que vou falar mas tudo bem. Vou tentar de novo. Como toda criança sadia, eu tinha ídolos na TV e programas favoritos. Um deles é o programa comandado pelo palhaço Bozo. Adorava vê-lo suplicando por uma bitoca em seu nariz e se dirigindo às pessoas como amiguinhos.

Mas não é só de um protagonista engraçadinho que vive uma boa atração televisiva. Mas isso não era problema para o Bozo, que estava muito bem acompanhado, obrigado! Papai Papudo, com seu bordão "Que horas são? 5 e 60.", Salci Fufu, do versátil e saudoso Pedro de Lara, Garoto Juca e sua turma faziam a alegria dos pimpolhos na década de 80. Mas uma estrela se destacava dos demais: Vovó Mafalda. Era uma senhora simpática, desengonçada, com um pomposo moranguinho em seu nariz, pijama de vovózinha querida e hits musicais como "Tumba lacatumba tumba tá".

Era impossível não se apaixonar por esta carismática personagem. O casting do Bozo era digno de aplausos efusivos todas as manhãs. Mas Vovó Mafalda era mais que isso. Uma ideologia de vida, uma apologia ao bem. Só que, infelizmente, Mafalda era uma parlapatona, uma fraude, uma fanfarrã sem pudores. Vou explicar o porquê.

Certo dia estava conversando com amigos, no auge de meus 20 e poucos anos, quando um deles lamentava a morte do ator Valentino Guzzo seguido do comentário: Poxa, era tão legal a Vovó Mafalda. Parei, pensei, e não consegui perceber o motivo desta associação. Questionei: O que tem a ver o Valentino Guzzo com a Vovó Mafalda? Ao que recebi uma resposta que caiu como um tsunami enfurecido: A Vovó Mafalda era o Valentino. Silêncio.....Revolta....Indignação.....Decepção. Cheguei para este mesmo amigo, com o dedo em riste e falei: Como assim? Está querendo me dizer que Vovó Mafalda era homem? E todos na roda riram, não crendo que eu desconhecia este fato.

Minha vontade era de chorar. Me senti um Ronaldinho, pois não sabia identificar que Vovó Mafalda era homem. O primeiro traveco da televisão brasileira. Não fiquei surpreso ao saber que o coelhinho da páscoa e papai noel não existem, mas Vovó Mafalda homem era demais para mim. Sonhava em tê-la como minha vovózinha. Ela fazendo bolo de fubá com suco de caju para mim, contando histórias da carochinha enquanto olhava seu rosto lãnguido com admiração, comprando pirulitos coloridos enquanto me divertia no carrossel. Não, não pode ser. Não é possível que por trás daquele vestido cheio de fru-frus e da cirola com um coração bordado havia uma sucuri de cabeça vermelha. Que nojo!

Era o fim de toda a minha fantasia pueril. O desfecho trágico de um sonho de criança. A morte cruel de um ídolo. Mas agora chega de heróis lúdicos. Meu mundo é real. Não vou mais cair em qualquer farsa. Vovó Mafalda não é mais modelo de mulher dos anos 80. Agora, Roberta Close....aquela sim....

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