Esqueceram de mim


1998. Mais uma manhã pós porre homérico. A essa altura você, querido leitor, deve achar que sou um alcoólatra inveterado, mas na verdade as minhas histórias mais engraçadas e insanas, na maioria das vezes, têm a bebida como fator desencadeador. E naquele despertar não foi diferente. Acordei como Galileu Galilei e conclui que o mundo realmente gira. A cabeça pesava toneladas. A saliva estava grudada com uma gosma mais resistente que Durepox ao Molho de Super Bonder. O olho produzia uma ramela dura como pedra. E o esôfago enviava gases tóxicos e fétidos em direção à boca, produzindo um hálito de jaula de hipopótamos albinos hippies da Guiné Bissau. A situação era crítica.
Foram alguns minutos de ritual higiênico (pelo menos o que dava pra aliviar) e pensar no que faria a partir dali. Fui em direção à cozinha e ao abrir a geladeira, um cenário desolador. Nada. Apenas uma jarra d'água com detritos não identificados boiando. Se o Aedes Aegypt não tivesse gosto exclusivo pelo calor, poderia jurar que estava produzindo a Dengue Frozen.
Era preciso ir às compras. Era preciso coragem para fazer, pois a situação física e mental dificultavam o desafio. Mas alguém precisava encarar. E não havia ninguém além deste que vos escreve. Vesti a primeira roupa que vi e fui ao supermercado.
Chegando lá, percebi na pele o que especialistas da economia sempre alertam: não faça compra com fome, você irá gastar mais. E no meu caso, não era apenas fome. Era larica brava, semelhante ao zumbi quando sente o frescor de um cérebro pulsante na cabeça de sua vítima. Me senti um leão quando avista um cervo solitário obeso saltitante nas savanas africanas. Minha intenção era comprar apenas o café da manhã, mas cada gôndola estimulava o meu eu predador das calorias, devorador dos açúcares, parasita da gordura, acumulador insaciável de colesterol. Doces, chocolates, refrigerantes, frios, congelados, biscoitos e bolachas (para cariocas e paulistas entenderem), carnes, massas, pães, alimentos prontos e muito mais. Uma bomba nuclear alimentar. Com um pouco de sentimento de culpa, comprei laranjas para fazer um suco na intenção de me renovar. Pura hipocrisia.
Me dirigi ao caixa antes que o prejuízo fosse maior. Tudo pago, hora de voltar. Apesar de o supermercado estar a cerca de 500 metros de casa, fazer esse percurso com várias sacolas não seria fácil. Primeiro o peso, algo sobrenatural, principalmente depois de uma noite de bebedeira desenfreada. Segundo porque a resistência dessa sacola se equipara a tentar levantar um elefante com papel de seda. E terceiro que não estava achando a posição ideal para carregar. A aba da sacola afina tanto no seu dedo que por pouco não o corta ao meio.
Peguei do jeito que dava e fui em direção à minha casa. Logo de cara precisava atravessar uma movimentada avenida. Completamente atrapalhado e cheio de pressa, corri fora da faixa de pedestre e quase fui atropelado. O motorista proclamou uma lista interminável de palavrões que eu ainda ouvia quando ele estava mais adiante, indo embora. No susto, as laranjas rasgaram a sacola e se espalharam pela avenida. Tudo bem, era hipocrisia mesmo.
Completamente irritado, segurei as sacolas novamente e apertei os passos para chegar mais rápido. Cada metro andado parecia aumentar o peso das compras. Me senti como Cristo carregando a cruz. Minutos depois avistei a casa, ao longe. O desespero aumentava. Parei para respirar e tentar organizar a bagunça. Algumas sacolas se rasgaram. O refrigerante escapava. A raiva imperava. E, completamente arrebentado, cheguei. Coloquei as sacolas novamente no chão para procurar a chave de casa no bolso. Procurei, procurei e achei……A CHAVE DO CARRO!!!! Sim, estimados leitores, eu fui ao supermercado de carro. E totalmente envolvido pelas compras, essa informação foi deletada da memória. Chorei litros. Totalmente desolado na entrada de meu lar. Tinha mais 500 metros de caminhada de volta. E o pior, não havia levado a chave da casa, que ficou dentro do fuckin motherfoca carro. Foi um longo e tenebroso caminho de volta...

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O negão da piroca

Sábio guru

Pombinha Manca