Eu, eu mesmo e a ressonância


Este fim de semana experimentei a sensação única de realizar uma ressonância da minha coluna. E ao invés de contar isso através de uma crônica tradicional, vou transcrever uma conversa que tive comigo mesmo durante o procedimento. Mais ou menos assim…

Atendente - Bom dia, em que posso ajudar?
Eu - Vim fazer uma ressonância
Eu mesmo - Não, vim me matricular para a aula de dança flamenca
Eu - Cala a boca
Eu mesmo - Não aguento pergunta cretina
Atendente - Como?
Eu - Desculpa, não é com você
Atendente - Ok, pode preencher esse formulário, por favor?
Eu - Vamos lá…doença não tenho nenhuma, alergia, cirurgias…nada
Eu mesmo - Será que seu nariz vai entrar no túnel? hahaha
Eu - Acho mais fácil o meu..ah, deixa pra lá.
Técnico - Ok, pode me acompanhar. Entre nesse vestiário e tire a roupa
Eu mesmo - Opa, essa ressonância não vai ser no meu túnel, não. Que história é essa de tirar a roupa?
Eu - Nossa, você é ridículo.
Eu mesmo - Calma lá, só pra quebrar o gelo. hehe
Técnico - Bom, deita aqui. Não pode mexer a coluna. Você tem claustrofobia?
Eu - Não, tranquilo, vamos começar
Técnico - Ok, vai fazer bastante barulho, por isso coloque esse protetor auditivo. Demora cerca de 20 minutos. Se precisar falar comigo, aperte o botão vermelho desse dispositivo.
Eu mesmo - Ok, ok, larga de papo e começa essa jossa
Eu - Bom, espero que não me encha o saco. Preciso de concentração pra não mexer a coluna
Eu mesmo - Com seus mais de 100 kg? Precisa de muito esforço pra mexer
Eu - Nem vou comentar
Eu mesmo - É impressão minha ou você está tenso?
Eu - Nossa, você está super engraçadão hoje. Não me aguento de rir
Eu mesmo - Essa gota saindo da sua testa…medo? Apertado esse túnel, não?
Eu - Ah, não me irrita, vai. Só não quero me mexer e terminar isso rápido
Eu mesmo - E essa barulheira, hein? Dá um frio na espinha. uhhhhh
Eu - PQP, vou colocar esse protetor auditivo. Não aguento ouvir sua voz
Eu mesmo - C-L-A-U-S-T-R-O-F-O-B-I-A…...
Eu - É, tenho que reconhecer que é meio desconfortável. E esse barulho... bem sinistro, viu?
Eu mesmo - Bichona, bichona, ui, florzinha, que meda, que frouxo...
Eu - Ah é, então dá uma olhada pra cima
Eu mesmo - Nossa, realmente fica encostado em nosso rosto, né?
Eu - Te falei, não é frescura não
….. (silêncio ensurdecedor)
Eu mesmo - Você está sentindo o mesmo que eu?
Eu - Não, não pode ser
Eu mesmo - Mas é
Eu - Oh, não…coceiraaaaaaa
Eu mesmo - Pensa em outra coisa, concentração
Eu - Por favor, alguém coça meu pé. Dou a minha vida
Eu mesmo - E esse exame que não acaba. Ele disse 20 minutos mas estamos aqui há anos. Em que ano estamos?
Eu - E esse barulho….ahhh, por favor, me tire daquiiii
Eu mesmo - Socoooorro, estamos morrendo sufocados
Eu - Estou com falta de ar. afff affff affff
Eu mesmo - Clica no botão do pânico, rápido
Eu - Não, senão vamos ter q fazer tudo de novo. Eu só quero que esse pesadelo acabe logo
Eu mesmo - Que barulho é esse, por favor, não faça isso
Eu - Estamos indo pra frente, em direção ao interior do túnel
Eu mesmo - Em direção à morte!!!!
Eu - Alguém me ajuda. Eu quero a minha mãe!!
Eu mesmo - Você é louco? Nossa mãe morreu. Apesar da saudade, não quero encontrar tão já
Eu - Como você consegue ter senso de humor essa hora? Estamos morrendo
Eu mesmo - Pai nosso, que estais no céu...
Eu - Estou vendo uma luz forte, chegou a nossa hora. Vejo um campo florido, anjos tocando harpas
Eu mesmo - Olha o senhor de branco…deve ser um mensageiro de Deus vindo nos buscar
Técnico - Pronto, acabou. Tudo tranquilo?
Eu - Claro, super de boa
Eu mesmo - Vixi, isso daqui foi melzinho na chupeta.
Eu - Ok, não exagera. Eu vi o quanto você é corajoso. O que é isso escorrendo em sua perna? Urina?
Eu mesmo - Ah, tava apertado para ir ao banheiro
Eu - Sei, sei
Eu mesmo - Ah, a liberdade, o espaço, os movimentos
Eu - O vento, a imensidão do azul celeste

E assim acabou mais um pesadelo em nossas vidas

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