Segundos de fama (crônica retrô)


Eu sou Robert. Adoro aparecer. Meu grande sonho é ter os lendários 15 minutos de fama e atrair a atenção de pessoas comuns, me olhando com a sensação de já ter me visto em algum lugar. Mas infelizmente isso nunca aconteceu. Se nem papel de figurante em um filme que retrata uma importante batalha no interior de Roraima eu consigo, imagina ser protagonista de um Blockbuster Hollywoodiano. Nem pensar. Mas não perco as esperanças. Se eu vejo uma câmera na mão, lá estou eu com uma idéia na cabeça...para aparecer.

E hoje tive uma destas oportunidades. Estava vindo para o trabalho, quando noto, ao meu lado, a presença de um carro da TV Bandeirantes, uma importante emissora paulista. No veículo, além do motorista, havia um repórter (percebi por ele estar segurando um microfone) e um cinegrafista já preparado para descer com a câmera na mão. Era a chance de me tornar uma celebridade internacional. Precisava pensar em alguma maneira de desfocá-los de seus objetivos. Não sei se eles estavam indo cobrir um assalto, incêndio, posse de algum político ou a chegada de um grupo de rock à cidade, mas eu precisava provar que minha presença era mais importante naquele momento.

Mas como eu faria isso dentro de um carro e no meio do trãnsito caótico? Sei lá, quem sabe fazendo gestos insanos ao dirigir ou mesmo pilotando de cabeça para baixo? Não, perigoso causar acidente. Talvez abaixar o vidro e fazer uma imitação do Sílvio Santos? Muito comum. Já sei! Vou acelerar o carro, colocar meio corpo para fora e simular meu dedo como arma emitindo sons de tiros e sirene. Não, arriscado. Poderia ser preso ou levado para o Centro de Zoonose do município.

Tinha que ser rápido pois poderia perder o carro da Band de vista. Pensei em coisas absurdas como dançar o créu em cima do capô, dança do quadrado na faixa de pedestres, andar sobre 2 rodas, fazer o percurso de ré, estender uma faixa de "Filma eu!", entre outras coisas patéticas. Mas em nenhuma delas conseguiria chamar a atenção dos profissionais de imprensa. Fiquei queimando neurônios em busca de um fato, provocado por este que vos escreve, que fosse um furo de reportagem. Mas sabem como é, tinha acabado de acordar e o cérebro ainda não funcionava nem com 0,1% de sua capacidade.

O inevitável aconteceu: o carro da Band virou a rua e acabei perdendo-os de vista. Era uma vez a chance do estrelato. Estava de volta o Mauro comum, filho de Deus. Fui trabalhar, como um lápis velho (desapontado) e segui minha rotina. Mas a crônica não acaba por aqui.

Fui almoçar e, coincidentemente, a TV do restaurante estava ligada na Band. E, para piorar, reconheci o repórter que encontrei na manhã de hoje. E, para me desolar de vez, prestei atenção no que ele falava e descobri a matéria que ele iria realizar: uma senhora que cuida de 10 cachorros. Ah, faça-me o favor! Não acredito que minha fama foi trocada por 10 vira-latas maltrapilhos. Porque eu não dancei o créu? Why? Why, sô! Repórter burro, poderia receber uma baita promoção, mas não, preferiu fazer uma matéria xôxa, sem graça. Vou te dar uma chance, Sr. Repórter. Amanhã estarei passando no mesmo lugar e horário. É só escolher o que devo fazer.

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