Simplesmente tocha


Todo mundo tem um amigo com parafusos soltos na turma, não é mesmo? No meu caso, como provavelmente no seu (afinal, convenhamos, não pode ser normal quem lê este blog, não é mesmo?) são muitos os colegas com este perfil. Mas existe um que provavelmente vai render algumas histórias neste humilde diário de rede, o tocha.
É difícil definir exatamente o que é o tocha, mas o mais próximo é um pot-pourri de insanidade, demência, sobrenaturalidade, exoterismo e doses extras de dorgas pesadas. Toda vez que ele estava com a gente, era certeza de algo imprevisível acontecer. A galera ria só da simples presença dele entre nós.
Nesta época nos divertíamos com pouco dinheiro e nenhuma forma de condução. Isso mesmo, em certas noites caminhávamos até 5 km em busca de bares e locais baratos para bebericar nossa cervejinha. Claro que elegíamos locais de preferência, e um deles era o auto lanche do Xande, um trailer mequetrefe no centro da cidade.
Em certa noite estávamos em umas 10 pessoas sentados à mesa e o auto lanche estava lotado. Já de cara pedimos algumas garrafas de cerveja para regar o início da jornada. O tocha me parecia calmo, até meio cabisbaixo, sem muitas palavras. Talvez aquela noite ele não estaria reservando nenhuma surpresa. Quem sabe depois de alguns goles o seu lado Serginho Mallandro fosse despertado. Só nos restava esperar.
Conversa vai, conversa vem, assuntos variados, política, esportes, mulheres, música, amenidades, fofocas de amigos e o tocha permanecia sereno, se comportando discretamente. Aquilo não era normal. Todos esperavam algo surreal acontecer, mas nada. Questionamos se algo estava errado com ele, mas a resposta foi: "Não, está tudo normal". Desencanamos. Até que em determinado momento o assunto era o sedentarismo e o mundo fitness. Claro que todos davam sua desculpa para não abandonar o estado vegetativo, com críticas severas ao duro mundo dos exercícios físicos. Nessa hora o tocha se levantou, olhou para todos e disse: "Eu agora vou entrar no mundo fitness". Respirou fundo, agarrou a roupa e zap! Como um ninja, tirou a camisa e a calça e revelou estar com a roupa de academia da sua irmã. Sim, amigos, ele estava com um top laranja fluorescente e uma calça mais colada que de cantor sertanejo. Colocou uma tiara da mesma cor que estava no bolso e gritou, enlouquecidamente, "e vamos lá. É um e dois e três. Let's movie. Come on, guys, uh!!!". Sim, o Deus da vergonha alheia pairou sobre nossa mesa. Ele não parava. E gritava mais alto, ordenando que acompanhássemos ele. Não sabíamos onde nos esconder, tamanho o constrangimento. O auto lanche lotado e espantado com a cena dantesca de um rapaz de quase 2 metros de altura vestido como uma panicat. Não era possível que aquilo estava acontecendo. Ele provavelmente mentalizou por dias aquela situação. Esperou o assunto academia estar em pauta e nos proporcionou aquele papelão. Após minutos de impotência diante do acontecido, foram horas de risadas. Um desfecho com chave de ouro pro fim de semana.
Demos um tempo até voltarmos ao auto lanche, por motivos óbvios. Mas em menos de 1 mês estávamos lá de novo. O auto lanche lotado, mas creio que não eram as mesmas pessoas e se fossem acho que nem lembravam de nós. Pedimos as cervejas e iniciamos mais uma jornada. Dessa vez o tocha estava mais solto, sem aquele ar de mistério e algo a aprontar. Isso nos confortava.
Conversa vai, conversa vem, assuntos variados, política, esportes, mulheres, música, amenidades, fofocas de amigos e outros temas. Até que um dos presentes comentou: "Cara, não consigo mais vir a este auto lanche sem lembrar aquele dia que o tocha veio com a roupa de academia da irmã". E, de bate-pronto, o tocha retrucou: "Qual roupa? ESSA?" Zap, zrum, catlaf! Sim, podem acreditar, tocha estava novamente com a roupa da irmã. Um outro modelo, ainda mais chamativo e justo. E a coreografia mais espalhafatosa e descoordenada. Ninguém acreditava no que estava acontecendo. Um déjà-vu das profundezas do cafofo do cramunhão. O desgraçado mancomunou com ele mesmo essa situação e esperou o momento se repetir para agir. É, ele é realmente imprevisível. O jeito é relaxar e gozar. Agora entendo o tocha. Uma tocha para queimar o filme.

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