Vida de inseto (crônica retrô)


Casa nova, vida nova. Como recém-casado, estou vivendo uma nova fase em minha vida. Estou morando em um condomínio cheirando a novo e com algumas particularidades que não observei em nenhum outro lugar. O lugar onde moro está situado em um bairro ligeiramente afastado de Campinas, porém muito promissor, já que estão previstos novos empreendimentos neste ano. Por enquanto, tudo são obras e áreas verdes. Com isso, um fenômeno aconteceu: o aparecimento de espécies animais raras e exóticas. Talvez pela localização, percebi que insetos estão aparecendo próximo à minha casa. E não são quaisquer insetos. São baratas mancas, aranhas albinas, grilos esquizofrênicos e bichinhos de grama saltitantes e voadores. Um mais estranho que o outro. Meu bairro praticamente se transformou no reino mutante dos invertebrados.

Daí você já imagina que vou discorrer sobre este assunto. Ledo engano. Apesar de dar um assunto interessante, decidi analisar algo maior que isso: A dessocialização das espécies-celebridades. E é deste tema que chegarei aos insetos com deformidades físicas e mentais.

Quem assiste programas da Discovery Channel ou Animal Planet se emociona com o mundo animal e suas belezas. Mas já notaram que sempre mostram este mundo sobre um olhar artístico e praticamente poético? São leões com madeixas douradas, panteras peroladas, alces com chifres de marfim italiano, pássaros com penachos de cores nobres e caramujos de olhos azuis? Sim, há o preconceito também no mundo animal. Ou você acha que um jegue malhado dá mais ibope que uma zebra de listras psicodélicas?

O mundo animal também sofre do mal humano de que um focinho bonito garante o estrelato. De que adianta um tigre robusto se for banguela? Hoje a lei da sobrevivência mudou. Não vence o mais forte e, sim, o mais belo. Só que não são tudo flores. Estes animais não ganham por direito de imagem. E o mais cruel: a vida artística animal é curta. E, tirando o elefante, ninguém mais se lembram de quem um dia foi famoso.

Apesar de todo o glamour de tornar-se celebridade ao devorar um cervo nas savanas africanas ou desenrolar suas longas papilas linguais e abocanhar uma libélula-rainha do pantanal, os animais-celebridades caem no ostracismo em questão de poucos meses. Aproveitam a fama com festas de arromba nas florestas, fazem sexo com diversas espécies, abusam das drogas e entram por um caminho sem volta.

São inúmeros os casos de animais que foram um dia protagonistas de batalhas épicas pela sobrevivência, transmitidas por emissoras de todos os cantos do planeta, e hoje estão caçando animais morimbundos e indefesos em áreas suburbanas de países sub-desenvolvidos. Um exemplo clássico é o dos 3 porquinhos, que depois de tornarem-se verdadeiras lendas ao derrotarem o lobo-mau, foram esquecidos e hoje optaram por participar de um reality-show: o PIG Brother (péssima essa!).

A realidade é triste e como se não bastasse a ação do homem, que dizima a fauna colocando-a sobre o risco de extinção, estamos enfrentando a guerra de egos animais onde os mais fracos se perdem nos vícios e na violência e tornam-se indigentes em pouco tempo.

Taí a explicação das baratas mancas e outros seres estranhos. Meu bairro é o verdadeiro depósito de artistas em decadência. Tsc, tsc.

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