Cabelos brancos (crônica retrô)


Estou passando por um momento da vida que não tem mais volta, fase essa que é das mais temidas pelos homens depois da calvície: o surgimento dos cabelos brancos. No começo eu conseguia disfarçar, sobrepondo os fios pretos, mas hoje os capillus queratinizados alvi-albinos estão predominando em meu couro cabeludo, denunciando a minha idade semi-avançada.

Muita gente acha exagero sofrer por cabelos brancos, dizendo que é normal. Mas o buraco é mais embaixo. Ter cabelos brancos, além de evidenciar os anos vividos, nos inicia em uma categoria ridicularizada: a dos "tiozões". É a proximidade com a meia-idade. É cortar o cordão umbilical com a juventude e não poder vestir-se como tal. É ficar indignado com a quantidade de "moleques" que existem em boates ao invés de admitir que é você quem está velho. Cabelos brancos não têm raiz no couro cabeludo e, sim, no lado emocional do cérebro. Enfim, pêlos de neve são um portal para a 3ª idade.

Mas não é exatamente este o fato principal da crônica, mesmo porque terminaria de uma maneira depressiva profunda, falando de coloração caju, interlace, fios pintados como naturais e outros bichos. Tenho personalidade e vou assumir minha condição de filhote de Cid Moreira com Walmor Chagas. Podem me chamar de cabeça de algodão-doce, fios de ovos albinos ou white power, eu não ligo.

Bom, mas vamos a razão de ser deste texto. O fato é que ontem, ao pentear minha vasta cabeleira, notei um esbelto e longo fio de cabelo na pia. Era uma generosa espécie negra perolada de minhas madeixas. Ele brilhava como um cristal nas montanhas nevadas do Himalaia. Poderia muito bem ser o protagonista de um filme da Avon Prime, aparecendo esvoaçante na cabeça de uma Top Model internacional correndo nas paradisíacas praias de Bora-Bora. Era para ser um orgulho do papai aqui. Mas o fato é que ele me abandonou carregando alguns anos de minha idade. Estava lá, prestes a ser engolido por um ralo, indo para um fétido esgoto e correndo o risco de embrenhar-se em um cocô de capivara qualquer. Triste fim.

Mas acham que fiquei mal? Não, definitivamente não. É a seleção natural. Apesar de lindo e imponente, meu fio petrolado e carvoado foi frouxo. Percebeu a iminência do domínio dos fios brancos e abandonou o barco. Ingrato, foi tratado com shampoos pefumados, cremes amaciantes, gels refrescantes e massagens capilares. Recebeu cafunés, carinhos diversos e agora desprende-se como se meu couro cabeludo fosse um albergue temporário? Virou estrelinha? Acha que vai fazer carreira como um fio de cabelo no paletó do Xororó? Hahaha, faça-me rir! Seu pesadelo está apenas começando. Ninguém, em sã consciência, cai da minha cabeça sem experimentar o gosto amargo da vingança.

Tenho inúmeros castigos para lhe desejar. Você pode virar uma peruca de cor caju de algum político, ser encontrado em alguma sopa de restaurante de beira de estrada, enrolar-se na bolsa escrotal de um indigente ou simplesmente ficar boiando no Rio Tietê. Tolinho, acha que por ser esbelto tem lugar garantido no hall da fama. Ingênuo, sua escolha foi equivocada e pagará por isso.

E assim, meu longo e belo fio de cabelo negro desceu, ralo abaixo, rumo ao desconhecido. A verdadeira madição da pérola negra....

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