Conversa de hospital (crônica retrô)


Dias atrás estava conversando com amigos quando surgiu o assunto hospital. Falávamos sobre cirurgias, recuperação, problemas de saúde entre outros. Nessa hora lembrei-me de uma personagem muito comum nos complexos hospitalares do mundo: a velhota enxerida hipocondríaca resolve tudo. É muito fácil identificar esta "serzinha das trevas malevolentas": é geralmente uma senhora simplória, mal vestida, de óculos, cabelo armado estilo esfinge do faraó Tutankamon Black Power, que senta-se estrategicamente ao seu lado e surge quando você está apreensivo, esperando notícias do parente ou amigo que acabou de passar por uma avaliação médica ou cirurgia.

Todos sabemos que em um momento de tensão queremos somente pessoas do nosso ciclo familiar e de amizade ao lado. Dificilmente abrimos exceção para estranhos, a menos que venham com palavras de apoio e que sejam o mais breve possível. Mas este não é o caso das "matusaléns das catatumbas de Kripton". Até que a intenção das mesmas é singela e pura, mas quando poem em prática o efeito é devastador.

Primeiramente, elas sempre viveram um caso semelhante ao que momentaneamente o enfermo está passando, porém, muitas vezes pior. Se o caso é de unha encravada, o tio do vizinho do primo de 2º grau dela perdeu os 5 dedos do pé pelo mesmo motivo. E o pior é que a senhora conta com um grande ar de dramaticidade e, em casos extremos, chega a te abraçar com lágrimas nos olhos.

Ao invés de nos consolar, as observações feitas causam depressão. Seja qual for o diagnóstico que o médico apresentar, a senhora vai fazer o seguinte comentário: "Ai, meu deus!". O balde é chutado quando ela complementa assim: "Eu já passei por isso, é terrível, doloroso, fiquei meses de cama, tomando remédios!". E para amenizar o discurso ela finaliza: "Mas não fica assim, não sofra, não pense que a vida não vale a pena, vai dar tudo certo".

Outra peculiaridade desta figura escabrosa é a que ela, em poucos segundos, já se julga da família. Começa a participar da roda de conversas, puxa papo (sempre sobre patologias), abraça pessoas, chora junto e toma iniciativa por uma invocação ao Pai- Nosso. Parece até que ela ocupa todo seu tempo em fazer amigos em hospitais. E hospital é lugar pra fazer amigos? Tenho certeza que o happy-hour delas é em algum cemitério, só pode ser.

E não acaba por aí. Talvez por freqüentar o ambiente médico, as "moçoilas" sempre têm uma receita mágica para a recuperação de doentes: chá de tapioca-amarela para câncer, suco de capim-macho de juazeiro para pedra nos rins e folhas de louros campestres de Machu Pichu para osteoporose.

As velhotas enxeridas hipocondríacas resolvem tudo são verdadeiras lendas do nosso folclore e, se você ainda não conheceu uma, pode ter certeza que se um ente querido seu estiver em qualquer hospital, ela estará em uma cadeira perto de você, te olhando com carinho e pronta para dar aquela "consolada".

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