Maionese de alho


Foi paixão à primeira derramada. Uma combinação perfeita de ingredientes nobres envolto pelo mais tenro colesterol. Um tapete vermelho à diabetes. Um convite VIP ao enfarto agudo. Estou falando da maionese de alho que experimentei, em meados de 1995, em um auto lanche qualquer na minha cidade natal. Depois daquele dia, tudo era motivo para saborear um sanduíche no Lanchão. Lembro-me até que, em uma ocasião que não vem ao caso, cheguei a comer o guardanapo de seda com a maionese, tamanha era a fome e a vontade de saciar os desejos de minhas papilas gustativas.
Não demorou muito e a maionese caiu no gosto de população. E a concorrência começou a perceber. Até tentaram imitar o gosto, alguns até conseguiram chegar perto, mas a maionese de alho do Lanchão é insuperável. Tem algo em sua fórmula que certamente ativa a sensação de dependência no cérebro. Os ovos que compõem o ingrediente devem ser de gansos nórdicos criados com o som de Vivaldi, camas de plumas de pavão da Tanzânia à temperatura de 18,36 graus Celsius e ração de caviar light com trufas de cereja-belga. O alho deve ser plantado em terras férteis do Mediterrâneo e regado com as águas mornas dos límpidos lagos do Tibet. E o preparo deve levar décadas de curtição, manejo especial e armazenamento em câmaras esterelizadas com pó de diamante puro e metais nobres híbridos.
Confesso que eu também tentei fazer a maionese em casa, mas em vão. Fui do mais óbvio até as receitas mais rebuscadas de internet. Não cheguei nem perto. Então, quando estava com vontade, simplesmente encomendava o lanche ou degustava essa maravilha da culinária condimentar in loco.
O tempo passou, muitas maioneses passaram, até que nesta quarta, nas comemorações de 20 anos da maionese de alho, o jornal local de TV anunciou o seguinte: na edição de hoje você vai aprender a fazer a famosa maionese de alho usada nos lanches. Uma lagriminha percorreu minha pele de pêssego, que a idade insiste em desmentir. Mal podia acreditar. Peguei o bloco de papel e uma caneta para anotar. Apressei o almoço para não perder sequer uma etapa. Era como ver uma final de campeonato mundial do meu time do coração.
Me acomodei no sofá e não desgrudei os olhos da TV. E chegou a hora do grande mistério ser revelado:

Apresentador - Quem é que nunca parou para comer aquele lanche de madrugada na rua? E aquela maionese de alho não poderia faltar, não é mesmo?
Eu - Nossa, nem me fale, dá água na boca
Apresentador - Pois agora o Fernando Kassab vai nos mostrar como fazer esse condimento que faz o maior sucesso nos auto lanches.
FK - Boa tarde, a Maionnesè di Allìo (não lembro o nome, então inventei esse) é uma inspiração da culinária francesa adaptada para o paladar brasileiro
Eu - Vive le France, Vive la Revolucion, Igualitè, fraternitè, maionesè. Puta que Paris, que maionese boa!
FK - Primeiramente coloque meio fio de azeite ou óleo de cozinha em uma frigideira
Eu - Nossa, é delicado até no preparo. Continua, continua
FK - Em seguida, uma colher de chá de alho moído. Depois, 2 colheres de sopa de maionese, daquelas que você compra em supermercado. Mistura e está pronto. Só servir. Tchau, boa tarde e até amanhã
Eu - You tá de brincation with me, cara? Como assim, tchau? Eu já fiz desse jeito e não ficou igual
Apresentador - Agora vamos falar de violência.
Eu - Vamos mesmo, porque vou quebrar aquele cozinheirozinho de meia pataca. Como vocês podem chamar de chef um energúmeno desse que mistura maionese e alho e fala que é receita francesa? Como você ousa dizer que misturando maionese de supermercado e alho triturado você tem o creme de la creme das maioneses, a nata de la societá dos condimentos? Volte aqui, faça direito, estúpido. Daqui a pouco fala que vai fazer uma massa tipicamente da Calábria e prepara um miojo. Shit!

E assim acabou a decepcionante história. Tchau, boa tarde.



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